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Quem
não conhece a canção Roda-viva, de
Chico Buarque? Essa letra faz parte da famosíssima peça
de mesmo nome, escrita em 1967 e que, um ano depois, sob a direção
de José Celso Martinez Corrêa, recebeu montagem à
altura, no teatro Oficina. Chico Buarque, que até então
era "a única unanimidade brasileira", nas palavras
de Millôr Fernandes, chocou parte de seu público com a radicalidade
crítica e o tom francamente agressivo da peça.
Mas vamos à letra Roda-viva: ela tem um chão
histórico específico, ou seja, os obscuros anos da ditadura.
É desse tempo que ela data e é o que esse tempo representou
para a experiência brasileira que ela aborda e cifra. Eu falei em
"cifra"? Sim, a palavra cifra tem, além
da acepção comercial que conhecemos, o sentido de explicação
de escrita hermética, enigmática, e, por extensão,
passa a significar essa própria escrita. Decifrar é
justamente tirar a cifra, tornar o texto claro, interpretá-lo.
Como dissemos, a composição de Chico se originou em meio
ao turbilhão da instauração da ditadura militar no
Brasil. Ditadura que representava, para a cultura, simplesmente o fim
da liberdade de expressão. Um meio muito utilizado na época
(e, de um modo geral, em períodos não democráticos,
no Brasil e em outros países) para driblar a censura foi a metáfora,
o despistamento, a linguagem figurada, a cifra. Alguns escritores e jornalistas
falavam aparentemente de flores e rouxinóis, quando estavam se
referindo à situação político-social brasileira.
O que é roda-viva? Roda-viva é, conforme os dicionários,
movimento incessante, corrupio, cortado; é
ainda confusão, barulho. O texto menciona ações
frustradas pela roda-viva.
Na letra a roda-viva está associada à morte, ao contrário
do que indica a palavra. A roda ceifa, arranca aquilo que ainda está
em desenvolvimento: a gente estancou de repente. A gente parou (de
crescer) de repente. Note-se como é expressivo o uso de estancar,
que nos faz lembrar imediatamente de sangue. Somos abortados na capacidade
de decidir o próprio destino, de adquirir autonomia como um rio
é barrado, como um fluxo de sangue é estagnado.
Essa
espécie de vendaval arrebata a voz, o destino das pessoas e a capacidade
de exprimir artisticamente seu sofrimento:arrebata-lhes
ainda a viola . A roda-viva arrebata da gente a roseira
há tanto cultivada e que não teve tempo de exibir
tudo o que prometia.
A composição é cortada por dois movimentos: um expressa
a ação empenhada, o trabalho sistemático, o desejo
de ser o sujeito da própria história. A esse movimento pertence
o querer ter voz ativa, o ir contra a corrente (da roda-viva),
o cultivo ininterrupto da rosa, o tocar viola na rua e a saudade de tudo
isso (na medida em que a saudade pode ajudar a reorganizar o pensamento
e a luta). O outro movimento expressa a ação abortiva
exercida pela roda-viva. Esse movimento vem expresso numa frase reiterada:
"Mas eis que chega a roda-viva e carrega (o que quer que seja) pra
lá". A conjunção "mas" sinaliza
justamente essa mudança de direção, sinaliza ação
adversa. A frase "eis que chega..." vem sempre ligada
na letra a um tipo de estribilho, a uma fórmula aparentemente ingênua,
que lembra as cantigas de roda: "roda mundo, roda gigante/
roda-moinho, roda pião/ o tempo rodou num instante nas voltas do
meu coração". Essa fórmula, inocente na aparência,
dado seu teor caótico e quase surrealista (típico de enigmas,
cantigas de ninar etc.) e a referência a brinquedos infantis (roda-gigante,
pião), tem o efeito de exprimir um desnorteio, uma situação
absurda, fora do esquadro. De fato, não é possível
conceber a ditadura como algo natural. Ela não pertence à
ordem da razão.
Esses movimentos descritos na letra são, portanto, de trabalho
em curso e de sucessiva frustração. Isso descreve muito
a experiência brasileira, tanto do ponto de vista social e político
como do ponto de vista cultural. Quando estávamos começando
a engatinhar na democracia, é instalado o regime totalitário,
para o qual não existem indivíduos. Sufoca-se até
a saudade (já cativa) de outros tempos.
Mas esse ambiente de tanto mal-estar foi filtrado por Chico Buarque com
muita cautela: era preciso despistar a censura, daí a profusão
de rodas e de versos encantatórios; era preciso dizer a verdade,
daí o tumulto e a sensação de frustração
advinda da mesma profusão de rodas, que diríamos serem antes
de trator.
Chico
Buarque
Francisco Buarque de Hollanda nasce em 19 de junho
de 1944, na cidade do Rio de Janeiro. Quando está com dois anos,
sua família se transfere para São Paulo. Tanto seu pai,
o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, como sua mãe,
Maria Amélia, gostavam de tocar piano e cantar com os amigos, entre
eles Vinícius de Morais. Estuda violão com sua irmã
Miúcha e, influenciado por João Gilberto, começa
a fazer suas primeiras composições. Cursa até o terceiro
ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Seu primeiro compacto
é lançado em 1965. Participa de alguns festivais de música
popular brasileira e, em 1966, no II FMPB da TV Record, quando "A
banda", música de sua autoria, divide o primeiro lugar
com "Disparada". Escreve peças, compõe
para cinema e teatro e lança vários álbuns, entre
os quais: Construção (1971), Sinal Fechado
(1974), Almanaque (1981) e Paratodos (1993).
Chico publicou Fazenda
Modelo (1974), Chapeuzinho amarelo, livro-poema
para crianças (1979), A bordo do Rui Barbosa (publicado
em 1981) , Estorvo
(1991)
e, em 1994, Benjamin, ambos pela Companhia das Letras.
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