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"O
mundo é um moinho" talvez seja uma das canções
mais bonitas já feitas no Brasil. É de autoria de Cartola,
que, morando na favela, fez poesia da melhor qualidade e compôs
músicas em que melancolia e força lírica formam um
par indissociável.
Na primeira estrofe da letra, a forma "ainda é cedo"
tem o sabor de uma réplica, não é mesmo? É
como se pressupusesse que algo foi dito antes. Afinal, trata-se quase
de uma frase padronizada, usada em quase cem por cento das vezes em que
uma visita diz que vai embora. Nós, educadamente, replicamos: Ainda
é cedo. Diríamos então que já de início
a letra pressupõe um interlocutor, indicado ao longo do texto com
vocativos: "Ainda é cedo, amor"; "preste
atenção, querida"; "Ouça-me bem,
amor". A julgar pelo "querida", pelo "resolvida",
trata-se de uma mulher. Não ouviremos em nenhum momento a voz dessa
mulher, pois, se isso acontecesse, teríamos um diálogo,
e a forma da canção lírica poderia resvalar para
uma forma dramatizada, quase teatral.
A repetição enfática dos vocativos acaba por indicar
o empenho com que se busca prender a atenção da interlocutora,
prestes a cair no mundo. Esse empenho é de tal ordem que
chega a ter cara de conselho, ou mais do que isso, de sentença,
a começar pelo título. O mundo é um moinho é
uma espécie de frase sentenciosa, dita por alguém que certamente
deve ter perdido um pouco de si mesmo nas pás desse moinho. A experiência
acumulada legitima o conselho, daí este ter sabor de profecia,
digamos assim, o que é marcado pelo futuro do presente:
"não serás mais o que és",
"o mundo (...) vai triturar seus sonhos", "vai
reduzir as ilusões a pó", "tu
herdarás só o cinismo". Parece mãe
rogando praga, não é?
Além do futuro, o presente do indicativo de valor atemporal,
comum em provérbios, também é usado: "Em
cada esquina cai um pouco a tua vida". Não é
que isso já esteja acontecendo, já que a moça está
ainda para partir. No entanto é uma fórmula lapidar, que
sintetiza uma verdade. Ninguém passa ileso pelas esquinas da vida.
Mas você acha que a letra é no fundo, no fundo, uma praga
de mãe (ou de pai, ou de amante?). Pois é, tudo depende
do contexto. Formas tão carinhosas como "amor", "querida"
de certa maneira embalam, acarinham o interlocutor, do qual, no entanto,
não se escondem as verdades desse mundo. Os verbos e expressões
ligados à corrosão que a realidade opera sobre os sonhos
são bastante violentos: triturar, reduzir a pó, estar à
beira do abismo. Mas, como dissemos, a verdade é revelada carinhosamente
, se assim podemos dizer. Não só pela ternura dos vocativos,
mas pela ternura da melodia mesmo.
A música é doce e melancólica e como que mostra a
inutilidade do conselho. Ninguém escapa ao moinho, por mais que
queiramos proteger aqueles que amamos. O saldo da aventura pelo mundo
é triste: cinismo, desilusão, perda de identidade: "Não
serás mais o que és". O mundo nos aparta de nós
mesmos.
Como consolo e promessa de um mundo melhor, resta-nos a arte. Que a música
de Cartola nos proteja.
CARTOLA
Angenor de Oliveira, o Cartola, nasceu no dia 11 de outubro de 1908, no
Rio de Janeiro. Por erro de um escrivão, seu prenome foi grafado
Angenor. Aos 8 anos de idade, já desfilava em blocos carnavalescos
de rua. Aos 11, foi morar com a família no morro da Mangueira.
Começou a trabalhar muito cedo. Foi tipógrafo e pedreiro.
Ganhou o apelido de Cartola justamente na época que trabalhava
em obras e usava um chapéu coco para evitar que seu cabelo ficasse
sujo de cimento. Em 28 de abril de 1928, fundou, com mais seis amigos,
a primeira escola de samba do subúrbio carioca, a Estação
Primeira de Mangueira, e tornou-se diretor de harmonia. Passou a se dedicar
à composição e aos poucos foi construindo um enorme
repertório. Preconceito(1959), O sol nascerá(1961),
Tive, sim(1968), Acontece(1972) e As
rosas não falam(1976) são exemplos da qualidade
e estilo do poeta conhecido como "o trovador do samba".
Faleceu de câncer em 30 de novembro de 1980. Para saber mais sobre
o poeta e compositor visite o site Cartola,
o trovador do samba do Alô Escola, baseado em programa
produzido pela Rádio Cultura AM.
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