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Nossa
sabedoria é a dos rios
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Nossa
sabedoria é a dos rios.
Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
E nos moveremos, |
Carlos
Nejar |
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O poema se inicia com uma sentença: Nossa sabedoria é a dos rios, que também é o título. Essa oração, absoluta, isto é, que não está conectada a nenhuma outra no período, é seguida por outra oração absoluta: Não temos outra, que vale como uma espécie de explicação da afirmação anterior, equivalendo a algo como é assim porque não temos outra. Mas por que não temos outra? Por causa do nosso desespero, como é dito na segunda estrofe? É provável. De qualquer modo, observemos que o resto da composição tratará de especificar (não com conceitos, mas com imagens) o que seria essa sabedoria dos rios. "Persistir.
Ir com os rios,
A julgar pelo
terceiro e pelo quarto versos dessa mesma estrofe, parece
que a sabedoria dos rios é a de nunca parar, mas sempre fluir,
escorrer, jorrar. Devemos "ir com os rios", seguir-lhes
a rota, "onda a onda". "Os
peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Vemos ocorrer aqui um desenvolvimento, por imagens, do que seja a sabedoria
dos rios. Não se trata mais de uma mera comparação,
ou seja, de seguir como os rios. Agora o que o eu lírico
está nos dizendo é que seremos rios. Os peixes
cruzarão nossos rostos, agora rios. Em seguida, no entanto, parece
sermos nós os peixes: A metáfora nuclear do poema é: somos os rios. Trata-se de uma idéia que podemos inferir desde os primeiros versos. Ocorre que nessa contaminação de sentido brotam outras metáforas. Na estrofe final, vemos uma exacerbação desse processo: "E
nos moveremos,
Note-se que a contaminação inicial rio-homens se
desenvolveu a tal ponto que não é possível mais
dizer que estamos apenas diante de um elemento que sofre a influência
de um outro elemento que lhe é distinto. Essa influência
foi tão grande que esses objetos se tornaram praticamente iguais,
e isso se deu a ponto de um se tornar espécie do outro. Explicando
melhor: com o verso "rio dentro do rio", não entrevemos
mais uma influência, mas uma espécie de emancipação.
O verso seguinte confirma essa idéia: "corpo dentro do corpo".
Brincando um pouco: a imagem do rio alimentou a imagem dos homens, que
gradualmente foi ganhando características da imagem nutriz. Homens,
transformados em rio, se movem dentro do rio. "Nossa
sabedoria é a dos rios.
Podemos quase ler "Nossa sabedoria é (como) a
dos rios". O elemento comparativo foi subtraído. Já
estamos entrando no terreno da metáfora. Ora, tudo nos leva a
crer que "como antigos veleiros" se inscreva num roteiro semelhante:
somos como antigos veleiros e, depois, somos antigos veleiros. A comparação
com os navios pertence àquela "multiplicação
metafórica" de que vínhamos tratando: somos rios,
peixes, correnteza e mesmo como barcos. Ou seja, somos o que vai por
baixo e o que vai por cima; não só "corpo dentro
do corpo", mas "corpo sobre o corpo".
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