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Nossa sabedoria é a dos rios

Nossa sabedoria é a dos rios.
Não temos outra.
Persistir. Ir com os rios,
onda a onda.

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero.
Passaremos límpidos.

E nos moveremos,
rio dentro do rio,
corpo dentro do corpo,
como antigos veleiros.

Carlos Nejar
 Árvore do Mundo
(1977)
Sobre o autor

 

O poema se inicia com uma sentença: Nossa sabedoria é a dos rios, que também é o título. Essa oração, absoluta, isto é, que não está conectada a nenhuma outra no período, é seguida por outra oração absoluta: Não temos outra, que vale como uma espécie de explicação da afirmação anterior, equivalendo a algo como é assim porque não temos outra. Mas por que não temos outra? Por causa do nosso desespero, como é dito na segunda estrofe? É provável. De qualquer modo, observemos que o resto da composição tratará de especificar (não com conceitos, mas com imagens) o que seria essa sabedoria dos rios.

"Persistir. Ir com os rios,
onda a onda".

A julgar pelo terceiro e pelo quarto versos dessa mesma estrofe, parece que a sabedoria dos rios é a de nunca parar, mas sempre fluir, escorrer, jorrar. Devemos "ir com os rios", seguir-lhes a rota, "onda a onda".

Onda a onda? Não estamos falando de rio? É verdade que usamos esse termo quase exclusivamente para as ondulações da água no mar; no entanto é mais do que legítimo empregá-lo para designar "porção de água que se eleva", seja de rio, seja de mar, seja de lago, como nos esclarece o Aurélio.

As orações, igualmente absolutas, "Persistir. Ir com os rios" são formadas por verbos no infinitivo, sem a presença de um sujeito marcado. Quem persiste? Quem vai com os rios?
Provavelmente elas se liguem ao primeiro verso, do qual vêm a ser atributos. Ou seja, é como se a frase tivesse sido interrompida e então voltasse a ganhar fôlego. Mas preste atenção: é como se. Isso, sintaticamente, não ocorreu. Ainda assim, não está fora de questão imaginar a seguinte estrutura: "Nossa sabedoria é a dos rios: persistir, ir com os rios". Ou seja, nossa sabedoria consiste em persistir em nosso caminho como os rios persistem no seu fluxo. Mas o verbo ser é apenas pressuposto por nós, pois ele não aparece explicitamente no poema para estabelecer a ligação entre sabedoria e persistir.

Muito bem, passemos agora à segunda estrofe:

"Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero.
Passaremos límpidos".

Vemos ocorrer aqui um desenvolvimento, por imagens, do que seja a sabedoria dos rios. Não se trata mais de uma mera comparação, ou seja, de seguir como os rios. Agora o que o eu lírico está nos dizendo é que seremos rios. Os peixes cruzarão nossos rostos, agora rios. Em seguida, no entanto, parece sermos nós os peixes:

"Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero".

Ora, se passaremos sob a correnteza, então não somos água, mas antes o que a atravessa. E essa correnteza é "feita por nós e o nosso desespero".

Observem que ocorre aqui uma espécie de multiplicação metafórica: somos o rio, somos a correnteza e somos os peixes. Digo multiplicação metafórica porque havia inicialmente uma metáfora, e esta germinou em outras.

A metáfora nuclear do poema é: somos os rios. Trata-se de uma idéia que podemos inferir desde os primeiros versos. Ocorre que nessa contaminação de sentido brotam outras metáforas. Na estrofe final, vemos uma exacerbação desse processo:

"E nos moveremos,
rio dentro do rio,
corpo dentro do corpo,
como antigos veleiros".

Note-se que a contaminação inicial rio-homens se desenvolveu a tal ponto que não é possível mais dizer que estamos apenas diante de um elemento que sofre a influência de um outro elemento que lhe é distinto. Essa influência foi tão grande que esses objetos se tornaram praticamente iguais, e isso se deu a ponto de um se tornar espécie do outro. Explicando melhor: com o verso "rio dentro do rio", não entrevemos mais uma influência, mas uma espécie de emancipação. O verso seguinte confirma essa idéia: "corpo dentro do corpo". Brincando um pouco: a imagem do rio alimentou a imagem dos homens, que gradualmente foi ganhando características da imagem nutriz. Homens, transformados em rio, se movem dentro do rio.

Vejamos o verso final:

"(...)
como antigos veleiros".

Esse verso não traz propriamente uma metáfora, mas uma comparação. Isso fica evidente graças ao uso da conjunção como. Mas é preciso lembrar que muitas vezes a metáfora tem origem em uma comparação. Assim, a expressão metafórica "água de cristal" teria os seguintes "antecedentes": água tão transparente como o cristal. Dessa forma, "água de cristal" é uma espécie de resumo dessa estrutura comparativa, resumo do qual foi suprimido o termo como. Sob certo aspecto, o poema de Carlos Nejar se inicia com uma passagem da comparação para a metáfora:

"Nossa sabedoria é a dos rios.
(...)
Persistir, ir com os rios...".

Podemos quase ler "Nossa sabedoria é (como) a dos rios". O elemento comparativo foi subtraído. Já estamos entrando no terreno da metáfora. Ora, tudo nos leva a crer que "como antigos veleiros" se inscreva num roteiro semelhante: somos como antigos veleiros e, depois, somos antigos veleiros. A comparação com os navios pertence àquela "multiplicação metafórica" de que vínhamos tratando: somos rios, peixes, correnteza e mesmo como barcos. Ou seja, somos o que vai por baixo e o que vai por cima; não só "corpo dentro do corpo", mas "corpo sobre o corpo".

O que somos exatamente?, poderia perguntar algum leitor mais afoito. Só posso recomendar um pouco de calma. Temos de renunciar a querer, nesse contexto, saber exatamente o que se passa. De uma maneira geral, essa palavra é estranha ao domínio da poesia e pode mesmo ser desastrosa. Renunciemos a querer apreender o sentido exato nesse território. Com relação ao belo poema de Nejar, importa sobretudo acompanhar o processo pelo qual novas metáforas são ampliadas e criadas a partir de outras, fazendo o sentido escorregar a cada vez que tentamos agarrá-lo.
Assim como um peixe se esquiva de nossas mãos, assim como a água é matéria inapreensível. Nós, leitores, temos de nos inspirar nessa sabedoria dos rios.

Carlos Nejar

Carlos Nejar nasceu em Porto Alegre, RS. Seu primeiro livro de poemas publicado, Selésis, data de 1960. Sua vasta obra inclui, entre outros, os seguintes títulos: Livro de Silbion(1960), O campeador e o vento(1966), Danações(1969), Árvore do mundo(1977), Obra poética (1980), Amar,a mais alta constelação(1991), Aquém da infância(1995). Sua obra tem merecido tradução em diversas línguas. O autor pertence à Academia Brasileira de Letras, é procurador de justiça aposentado e mora atualmente em Guarapari.
Para saber mais sobre o poeta visite: http://www.nejar.cjb.net