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"Há
que amar e calar" , diz Carlos Drummond de Andrade lá
pelas tantas neste que é um de seus poemas mais lembrados. Não
custa observar que o poema se inicia com o magnífico verso "Deus
me deu um amor no tempo de madureza", com relação
ao qual muitos estranham "madureza", sinônimo de
"maturidade", provavelmente porque essa palavra evoque
o antigo curso de madureza, que é como era chamado o curso supletivo.
Nosso
poeta considera, numa alegria que não lhe dissolve a estridência
irônica, que o amor se acompanha de silêncio na maturidade
(sem os folguedos de juventude), que, portanto, é preciso amar
e calar. E essa necessidade vem expressa pela forma mais grave que
é o "há que", raríssima na fala
cotidiana. Essa gravidade dá o tom ao poema, no qual um "amor
crepuscular" surpreende o homem quase velho e que se supunha
tomado demais pela melancolia. Como equacionar a graça de
um amor a essa altura e a ferocidade de quem sempre foi torto na vida,
como o poeta disse de si no Poema
de sete faces, de seu primeiro livro de poesia? "Há
que amar diferente", soluciona Drummond, "há
que amar e calar".
A
sintaxe
do verbo haver é uma das mais complexas da língua portuguesa.
O "Aurélio", por exemplo, registra 16 acepções
para ele, entre as quais, curiosamente, não se encontra a de "ser
preciso, urgir", que é a que nos interessa aqui hoje.
O dicionário "Michaelis" e o "Caldas Aulete"
também não trazem a forma usada por Drummond. Em todos eles
encontramos a regência em que haver, seguido de infinitivo e sem
preposição, assume o sentido de ser possível:
"Não há persuadi-lo de seus planos" (equivalente
a "Não é possível persuadi-lo de seus planos").
Mas não é bem o caso aqui, em que temos "haver que+infinitivo"
, na acepção de "dever", "ser preciso",
o que é registrado no "Dicionário de Regência
Verbal" de Celso Luft. Este dá dois exemplos de peso: Vieira
- "Não há que fiar em lágrimas" e um provérbio
popular - "Não há que fiar em Deus em tempo de inverno".
Notem que tanto nesses casos como no verso de Drummond não foi
usado o pronome "se". Ele realmente não é necessário
aqui, como não é necessário na expressão "osso
duro de roer". Frases como "Há que se pensar em
novas diretrizes", "Há que se melhorar a distribuição
de renda" são deselegantes. Algo muito diferente do que ocorre
no poeta de Itabira, em que o verbo é grave, sem jamais ser inflado
e a eloqüência não faz estardalhaço. Há
que ler Drummond.
Carlos
Drummond de Andrade
O
poeta Carlos Drummond de Andrade nasce em Itabira, Minas Gerais, a 31
outubro de 1902. Em 1920 vai morar em Belo Horizonte, onde integra o movimento
literário modernista, do qual faziam parte, entre outros, Emílio
Moura, Abgar Renault e Pedro Nava. Em 1925 conclui o curso de Farmácia.
Em 1928, publica, na Revista Antropofagia, o poema "No
meio do caminho" e, nesse mesmo ano, inicia sua carreira de funcionário
público. Seu primeiro livro, Alguma poesia, é
publicado em 1930, e o segundo, Brejo das almas, é
lançado em 1934. Escreve para diversos jornais e revistas. Dedica-se
ao serviço público e, no Rio de Janeiro, torna-se chefe
do gabinete do Ministro da Educação. Em 1964, é publicada,
pela editora Aguilar, a Obra completa de Drummond. Entre
seus livros mais importantes estão: Sentimento do mundo(1940),
A rosa do povo(1945), Claro enigma(1951).
É considerado um dos maiores poetas brasileiros. Drummond dedica-se
também à crônica. Entre os principais livros em que
revela grande domínio nesse gênero, destacam-se Passeios
na ilha (1952), Fala, amendoeira (1957), Cadeira
de balanço (1966). Falece a 17 de agosto de 1987, deixando
três obras inéditas.
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