
|

Rachel
de Queiroz
Biografia
Rachel
de Queiroz (1910 - ) é uma das grandes escritoras da literatura
brasileira. Já escreveu contos, romances, crônicas, peças
de teatro, criticas literárias e livros infantis.
Nascida no Ceará, ela e sua família migram para o Rio
de Janeiro no ano de 1917, fugindo de uma forte seca que assolava o
Nordeste. Fatos como esse influenciariam profundamente sua literatura,
que tem como uma de suas características mais marcantes o realismo
com que aborda o homem nordestino e os problemas relacionados com a
terra.
Rachel estreou no mundo literário muito jovem, aos 20 anos de
idade, com seu romance O Quinze, que aborda temas como a seca
e a pobreza.
Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras,
no ano de 1977, e já recebeu diversos prêmios literários.
Grande cronista, Rachel já publicou mais de duas mil crônicas,
que deram origem a diversos livros. Dentre eles está Um alpendre,
uma rede, um açude - Cem crônicas escolhidas, do qual
extraímos a crônica abaixo.
Ilha,
dezembro de 1949.
Talvez o último desejo
Pergunta-me
com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior
desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que
desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos,
saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?
Mas
a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo
que representa o real desejo do meu coração, seria abrir
os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer
na cara: Te dana!
Sim
te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos,
ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à
população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se!
Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo,
vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo
de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.
Isso
que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te
dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode
voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de
borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de
Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!
Chegar
junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos,
respeitável público. Acabou-se a adulação,
não me importo mais com as vossas reações, do que
gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença
pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um
dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro,
respeitável público, e não amoleis o escriba que
de vós se libertou!
Chegar
junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo,
o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que
cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou
de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules
eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o
voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o
chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso
mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que
me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é
tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.
Dizer
te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao
amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar
o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau,
sem compromissos nem afetos.
Me
deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando
devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem
receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos
de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre
o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir
docemente ao mormaço.
*
Mas
não faço. Queria tanto, mas não faço. O
inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável
pelo céu e pela terra, o insolente coração não
deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável
coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver.
O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade:
quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem
que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e
atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa
submissão e cegueira tira a sua única felicidade.
Tem
que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme
que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças
previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças
acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer
que esse estúpido coração existe. Mas essa é
a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso
sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado
longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho
para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.
E
tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada
um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.
E
tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e
tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço
de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para
mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações
antes de nós, passaram assim de pai a filho.
E
tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com
janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.
E
tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços
que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que
o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que
são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os
outros.
E
tem o respeitável público que há vinte anos nos
atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências
e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se
pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas;
e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar
da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito
pela autoridade, e paciência em dia de eleição.
Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar
no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente
lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em
paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.
E
assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música,
a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar
e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio
geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for
preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.
Prisão
de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves,
por que lutar contra as tuas grades?
O
único desabafo é descobrir o mísero coração
dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura
do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração,
te dana!
Texto extraído do livro:
Um alpendre, uma rede, um açude - 100 crônicas escolhidas.
Rachel de Queiroz. Editora Siciliano. São Paulo. 1993 p. 101-103.
|
 |