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Graciliano
Ramos
Biografia
Graciliano
Ramos (1892-1953) foi escritor, revisor de jornal e diretor a Imprensa
Oficial de Alagoas. É um dos grandes nomes da Segunda Geração
do Modernismo brasileiro. Grande expoente do romance regionalista, Graciliano
apresenta estilo marcante com textos secos e enxutos. Suas principais
obras são Vidas Secas e São Bernardo, que
abordam temas como a seca, o corenelismo, a miséia e a força
do povo nordestino.
Durante o Estado Novo, ao ser acusado de ligações com
o Partido Comunista Brasileiro, Graciliano é preso. As experiências
vividas na prisão seriam, posteriormente, relatadas em seu livro
Memórias do Cárcere.
Graciliano escreveu crônicas para os jornais O Índio
(Palmeira dos Índios), Jornal de Alagoas (Maceió)
e Paraíba do Sul (Paraíba do Sul, RJ), sendo que
muitas delas forma reunidas em livros.
Crônica
publicada no jornal Paraíba do Sul, em 20 de maio de 1915.
IX
O
vendedor de jornais é o tipo mais despreocupado e alegre do mundo.
Tem uma alma de pássaro.
Claro
está que nos não referimos ao carrancudo português
que, em meio de uma chusma de folhas metodicamente dispostas, passa
os dias sentado, com as pernas cruzadas no ponto de reunião da
Rua do Ouvidor com o Largo de São Francisco, na Brahma, nas portas
dos cafés da Avenida, em toda a parte. Não aludimos tampouco
ao grave italiano de bigodeira espessa nem ao "carcamano"
que, de bolsa a tiracolo, apregoa uma algaravia "à la diable",
a Nôtizia e o Zêculo.
Queremos
falar do pequenino garoto de dez anos, o brasileirito trêfego,
ativo, tagarela como uma pega, travesso como um tico-tico.
Está sempre a rir, sempre a cantar. Canta o dia inteiro, num
tom arrastado, apregoando as revistas que vende.
Por
aqui, por ali, vai, vem, corre, galopa, atravessa as ruas com uma rapidez
de raio, persegue os veículos, desliza entre os automóveis
como uma sombra. Parece invulnerável.
É
assim uma espécie de pensionista do público - arrebata
as pontas de charuto que se jogam à rua e surrupia, para revender,
os jornais que se deixa esquecidos nos bancos dos passeios. Se pode
à socapa, deita a mão a alguma dessas pirâmides
de frutos que sedutoramente se elevam às portas das mercearias.
É
extraordinária a celeridade com que ele se transporta de um lugar
para outro. Anuncia no Leme, na Tijuca, em Niterói, um jornal
que a gente pensa ainda estar no prelo. Dir-se-ia que tem asas.
Fuma,
bebe aguardente, pragueja, solta pilhérias torpes, pisca os olhos
maliciosamente à passagem das mulheres, canta trovas obscenas
com a música da "Cabocla de Caxangá".
Torna-se
importuno às vezes, quando, a correr pelas plataformas dos bondes,
fazendo reviravoltas de símio para escapar à sanha de
algum condutor rabugento, nos atordoa os ouvidos com estupendos gritos
estridentes.
Nada
lhe empana a limpidez de espírito, nada. Está tão
habituado a anunciar todos os dias "um grande atentado, um pavoroso
incêndio, a prisão do célebre bandido Fulano",
que afinal acaba por encarar todos esse fatos indeferentemente.
Tem
gestos próprios e expressões peculiares. Para ele um assassínio
ou um suicídio é simplesmente uma "encrenca".
Um conflito é um "robo". Sua interjeição
predileta é uê, que aliás é usada por toda
a gente carioca.
Parece que desconhece hierarquias e vaidades tolas, porque não
empresta títulos a nenhum nome. Diz: "O partido do Pinheiro,
discursos do Ruy Barbosa, o governo do Nilo Peçanha", como
se todos os cabecilhas da República fossem apenas vendedores
de jornais.
Fala
sobre política, conhece o valor de nossos parlamentares, discute
os principais episódios da conflagração européia,
critica os atos do poder e emprega imoderadamente esses vistosos adjetivos
que figuram nos cabeçalhos dos artigos importantes para engodar
o público incauto.
Detesta
a monotonia dos tempos de paz. Gosta das revoluções, dos
motins, das grossas "mixórdias" que lhe proporcionam
ocasiões de ver todas as folhas arrebatadas, sem que haja necessidade
de ele gritar como nos dias ordinários.
Não
é somente o jornalista que explora vantajosamente os crimes -
ele, o garoto endiabrado, também sabe tirar partido das mais
insignificantes perturbações da ordem, revestindo todos
os fatos de acessórios que lhes dão proporções
extraordinárias. Parece que tem o dom de pôr um grande
vidro de aumentar em cima dos acontecimentos.
É astucioso, impostor, velhaco.
Com
uma finura de comerciante velho, emprega artimanhas de mestre, complicados
ardis, artifícios que são uma obra-prima de sutileza,
tudo para embair os transeuntes. Mente apregoando sedutoras notícias
fantásticas.
Enfim, sob certos pontos de vista, o pequeno garoto vendedor de jornais
é uma espécie de jornalista em miniatura...
Extraído do livro
Linhas tortas. Graciliano Ramos. Editora Record. 11ª Edição.
Rio de Janeiro. 1984. p. 29 - 31.
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