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O silêncio de Ricardo Ramos

Num ardil de sonhos e palavras, vitórias e amarguras, levaram-no as águas turvas deste rio crepuscular, que nos arrasta para o insondável mergulho. Agora, separado de nós pelas florestas do tempo, em outra noite ainda mais poderosa e abundante do que a nossa, ele nos recoloca no grande anfiteatro, cenário de uma batalha permanente entre o amor e a morte.

Vemos em nosso próprio espelho o rosto grave, as mãos translúcidas, a inquietação que nasceu lá atrás na pequena cidade alagoana de Palmeira dos Índios, onde Graciliano e Heloísa ouviam os pássaros e se aqueciam ao sol. Nas ruas que se apagam no passado do Rio de Janeiro, fez-se jornalista, advogado, publicitário e escritor. Abriu todas as portas dos anos dourados, publicou um livro de contos - "Tempo de Espera" - e se transferiu para São Paulo, trazendo na mala "um profundo sentimento brasileiro". (Jorge Amado)

Entre a alvorada e o anoitecer, o contista preciso, o ficcionista essencial invadiu dicionários e enciclopédias, antologias e teses universitárias. Recebeu diversos prêmios, inclusive como romancista. Deu aulas, foi conferencista, presidiu a União Brasileira dos Escritores (UBE) e se tornou membro da Academia Paulista de Letras.

Mas é " no divino labirinto dos afetos" - como disse Borges - que sua ausência mais nos emociona. Os gestos, a voz profunda, a fina ironia. O cigarro e o cafezinho. A paixão pelo ofício de escrever. O amor às pessoas. Marise, os filhos, os amigos. O rigor dos caminhos e as bifurcações. O nostálgico ritual dos encontros - e também os desencontros e as agonias.

Do outro lado das portas e dos sonhos, Ricardo Ramos é, há dez anos, o nosso espelho cansado e o nosso desalento. É igualmente o nosso preciso cristal, a face oculta do nosso cotidiano, o leito imprevisível de todos os rios que convergem em cada um de nós. Ouvimos claramente o seu silêncio, que era "o principal segredo do seu estilo" como definiu Tristão de Athayde.

Traduzido para o inglês, o espanhol, o alemão, o russo e o japonês, Ricardo de Medeiros Ramos teve seus livros adotados em colégios e seus contos incluídos em antologias escolares. Nada disso, porém, significa mais do que a sua permanência, o seu rastro, a pálida cabeça esculpida na memória dos amigos, as tardes de chuva, os rumores, o rio interminável e esta efêmera eternidade dos nossos afetos.