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Lagos e monstros

Do fundo de todos os lagos, entre florestas e brumas, alguma criatura misteriosa sempre atravessa as barreiras do tempo para desafiar a imaginação das pessoas. Ela nos coloca diante de um mistério insondável de algas, lodo e agonia. Abre o alçapão dos nossos próprios segredos, os mais escondidos, e vem lamber nosso medo e dilacerar nossa precária segurança.

Nos lagos da Escócia, por exemplo, sabe-se que habita um monstro milenar de nome suave - Nessie. Muita gente já o viu, há fotos tiradas e reveladas. Ele parece um dinossauro, um anfíbio dinossauro com seu pescoço musculoso e comprido, que raramente resplandece ao sol, porque criaturas deste tipo amam a penumbra, as sombras, a neblina. E o anonimato.

Nos 96 mil lagos cadastrados da Suécia também haverá monstros, com certeza, mas os suecos os protegem com seu silêncio. No Canadá, país gelado e de baixa densidade demográfica aqui do continente americano, a cartografia revela um número de lagos ainda maior do que na Suécia: 110 mil. Durante os dois anos em que morei lá, estive às margens de muitos deles. Molhei as mãos nas águas de uns; andei de canoa na pesada solidão de outros; caminhei cautelosamente sobre o gelo que cobria outros mais. Monstros ? Nunca os vi.

Num dos diversos passeios que fiz pelo interior da província de Quebec, sentei-me junto às águas escuras de um lago imenso, profundo e de nome estranho: Memphremagog. A tarde correu, as nuvens se foram, o sol mergulhou entre cores berrantes e montanhas abruptas. Uma abertura de Wagner - tinha-se a impressão - descia as encostas. |O cenário era favorável; o momento, propício. Tudo ali parecia preparado para a entrada triunfal do monstro. Mas ele não apareceu.