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Clarice Lispector Biografia Clarice
Lispector (1920-1977), nasceu na Ucrânia e chegou ao Brasil
com seus pais em 1921.
Uma imagem de prazer Conheço
em mim uma imagem muito boa, e cada vez que eu quero eu a tenho, e cada
vez que ela vem ela aparece toda. É a visão de uma floresta,
e na floresta vejo a clareira verde, meio escura, rodeada de alturas,
e no meio desse bom escuro estão muitas borboletas, um leão
amarelo sentado, e eu sentada no chão tricotando. As horas passam
como muitos anos, e os anos se passam realmente, as borboletas cheias
de grandes asas e o leão amarelo com manchas - mas as manchas
são apenas para que se veja que ele é amarelo, pelas manchas
se vê como ele seria se não fosse amarelo. O bom dessa
imagem é a penumbra, que não exige mais do que a capacidade
de meus olhos e não ultrapassa minha visão. E ali estou
eu, com borboleta, com leão. Minha clareira tem uns minérios,
que são as cores. Só existe uma ameaça: é
saber com apreensão que fora dali estou perdida, porque nem sequer
será floresta (a floresta eu conheço de antemão,
por amor), será um campo vazio (e este eu conheço de antemão
através do medo) - tão vazio que tanto me fará
ir para um lado como para outro, um descampado tão sem tampa
e sem cor de chão que nele eu nem sequer encontraria um bicho
para mim. Ponho apreensão de lado, suspiro para me refazer e
fico toda gostando de minha intimidade com o leão e as borboletas;
nenhum de nós pensa, a gente só gosta. Também eu
não sou em preto e branco; sem que eu me veja, sei que para eles
eu sou colorida, embora sem ultrapassar a capacidade de visão
deles (nós não somos inquietantes). Sou com manchas azuis
e verdes só para estas mostrarem que não sou azul nem
verde - olha só o que eu não sou. A penumbra é
de um verde escuro e úmido, eu sei que já disse isso mas
repito por gosto de felicidade; quero a mesma coisa de novo e de novo.
De modo que, como eu ia sentindo e dizendo, lá estamos. E estamos
muito bem. Para falar a verdade, nunca estive tão bem. Por quê?
Não quero saber por quê. Cada um de nós está
no seu lugar, eu me submeto bem ao meu lugar. Vou até repetir
um pouco mais porque está ficando cada vez melhor: o leão
amarelo e as borboletas caladas, eu sentada no chão tricotando,
e nós assim cheios de gosto pela clareira verde. Nós somos
contentes. Texto extraído
do livro:
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