
|
Obra poética
reconhecida
A Biblioteca Infantil, mais do que um sonho de Cecília Meireles embalado desde a infância, é um sucesso no Rio de Janeiro até 37, quando o Interventor do Distrito Federal invade o Centro e apreende AS AVENTURAS DE TOM SAWYER, de MARK TWAIN, um clássico norte-americano, sob acusação de comunismo. O caso repercute no Brasil e no exterior. Depois da invasão, o Centro de Cultura Infantil é fechado pelo Estado Novo. O ano de 38 marcará seu retorno à poesia. O livro VIAGEM, publicado no ano seguinte (1939), recebe da Academia Brasileira de Letras o Prêmio de Poesia. O reconhecimento se faz presente. VIAGEM é composto por doze poemas, que podem ser interpretados como doze etapas de uma trajetória espiritual, onde vida e poesia se confundem, da mesma maneira que a poeta e a natureza. Formalmente, convivem lado a lado versos de sete e oito sílabas e versos livres.
Reconhecida oficialmente, a partir do lançamento de VIAGEM, em 39, Cecília Meireles inicia um novo período de produção intelectual e de afetividade. Casa-se, em 1940, com Heitor Grillo, passa a lecionar literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas, profere conferências no México e visita a Argentina, Uruguai e diversos países europeus. Até o final dos anos 40, produz intensamente. Em 42, publica VAGA MÚSICA, onde pergunta, em um poema: COISA QUE PASSA, COMO É TEU NOME? Três anos depois, publica MAR ABSOLUTO e, em 49, RETRATO NATURAL, transmitindo sua busca e perplexidade diante do enigma da existência humana.
Quando lançado, RETRATO NATURAL foi assim recebido pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, que assinava coluna no Jornal de Letras do Rio de Janeiro: "Uma espécie de retrato natural da fisionomia da sra. Cecília Meireles, e que a situa definitivamente na corrente tradicional dos poetas peninsulares... Com a sra. Cecília Meireles, o verso português não sofre nenhuma distorção violenta. Apenas ficou mais fluido, adquiriu uma diferente e surda musicalidade. Bem a qualificou outro grande poeta, João Cabral de Melo Neto: libérrima e exata."
Na década de 50, Cecília Meireles intensifica as viagens para o exterior. Reconhecida, vive a plenitude, num período caracterizado pela felicidade e satisfação profissional. Em 51, participa do I Congresso Nacional do Folclore, no Rio Grande do Sul. Na infância, Cecília Meireles tomara contato com o folclore açoriano através da avó. A cultura popular fora-lhe transmitida através de uma pajem, que lhe contava histórias, contos, adivinhações e fábulas. O interesse pela cultura popular brasileira, que já havia levado a poeta e educadora para além das fronteiras nacionais, acaba por levá-la mais longe nos anos 50. Ainda em 51, após o lançamento de AMOR EM LEONORETA, viaja aos Açores, França, Bélgica e Holanda. No período, escreve DOZE NOTURNOS DE HOLANDA. O termo "noturno" tem conotação com os mistérios da noite, e também tem relação com a composição musical, melancólica e terna. A obra, composta por 12 noturnos, traduz a busca de Cecília, sua angustiada tentativa de penetrar a razão da existência humana. A crítica afirma que, em sentido figurado, "a idéia da noite percorre os doze poemas, como um sinônimo de questionamento do sentido da vida, da oportunidade de purificação ou da imagem da morte".
Os Doze Noturnos de Holanda foram publicados em 52, mesmo ano do lançamento de O AERONAUTA, período em que a poeta encerra a pesquisa que resultará no ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, uma narrativa rimada, na definição da autora, que lhe consumiu dez anos de pesquisa. A temática, de caráter histórico e nacionalista, remete o leitor à Inconfidência Mineira. A poeta associa a verdade histórica com tradições e lendas e, ao utilizar-se da técnica ibérica dos romances populares, recria a atmosfera de Ouro Preto, Vila Rica dos Inconfidentes. Na obra aparecem, alternados, os "romances", os "cenários" e as "falas".
Ouça Cecília Meireles No mesmo ano em que o Romanceiro é publicado, Cecília Meireles recebe o título de Doutor honoris causa da Universidade de Délhi, na Índia. Ela havia sido convidada pelo governo indiano a participar de um simpósio sobre a obra de Gandhi. O trabalho lhe rendeu o título concedido. Cecília, que desde a adolescência vivia o fascínio pela cultura oriental, extravasa a experiência vivida em sua poesia. Da viagem nascem os POEMAS ESCRITOS NA ÍNDIA, parte das crônicas-evocação que irão compor GIROFLÊ-GIROFLÁ, e a ELEGIA A GANDHI, hoje traduzida para inúmeras línguas. Antes de voltar ao Brasil, uma passagem pela Itália. Surgem os POEMAS ITALIANOS. Seguem-se, ainda, viagens a Porto Rico e Israel. |
|
|
Giroflê, Giroflá foi publicado, em edição limitada, em 56 e reeditado em 1981. O livro, composto por crônicas, em prosa poética, reúne as impressões de Meireles recolhidas em suas viagens pela Índia e Itália. De volta ao Brasil, depois de passar por Porto Rico e Israel, em 58, Cecília Meireles acompanha a publicação da sua OBRA POÉTICA, que consistiu no reconhecimento do mercado editorial do seu valor e talento literário e artístico. Até 64, a poeta lançaria, ainda, METAL ROSICLER e SOLOMBRA, em 60 e 63. Cecília Meireles morre no Rio, em 9 de novembro de 1964. Em plena atividade literária, deixando incompleto um poema épico-lírico, escrito em comemoração ao quarto centenário do Rio de Janeiro, sua cidade Natal. Além deste poema, deixa inúmeros textos inéditos. No ano seguinte à sua morte, a Academia Brasileira de Letras concede-lhe o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Amada pelo público - até hoje, Cecília Meireles é a poeta mais lida do Brasil, sendo ultrapassada apenas por Vinícius de Morais e Carlos Drummond de Andrade -, Cecília Meireles permanece um desafio para a crítica nacional. Ela partiu do pós-simbolismo e do lirismo português. À margem do modernismo, construiu uma obra de dicção muito pessoal, que a faz admirada não apenas pelo público, mas também por colegas, como Drummond, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. E alcançou uma meta: |
| "acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante." |
|
O crítico e ensaísta Davi Arrigucci Jr. afirma que ela era uma poeta altamente técnica, uma grande artista do verso, que deixou expressa em sua obra a tensão entre o sentimento do fugidio e rigor que ela própria se impunha para expressar esse sentimento. Arrigucci prossegue: "extremamente musical, com metáforas fortemente sensoriais e sua insistência no uso da primeira pessoa, Cecília Meireles parece ter cantado sempre o mesmo tema:"a busca do eterno no transitório, do transcendente no contingente, do milênio no minuto".
|
| Retrato "Eu não tinha esse rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas eu não tinha este coração que nem se mostra eu não dei por esta mudança tão simples, tão certa, tão fácil em que espelho ficou perdida minha face?" |
|
TEXTO EXTRAÍDO, NA ÍNTEGRA, DO PROGRAMA
"ÍNDICE CULTURA - Editoria Especial" |