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Inversão da ordem dos termos numa oração
De você eu gosto.
Eu gosto de você.
As palavras são as mesmas, só a ordem
se altera. Será que a primeira frase tem exatamente o mesmo sentido
da segunda? Podemos convir que o sentido seja o mesmo, mas sabemos que
ninguém coloca as palavras numa certa ordem por acaso.
Quando alguém diz "De você eu
gosto", a ênfase recai no sintagma "de você".
Essa inversão da ordem gera mudança de foco, mudança
de luz. Note que "de você eu gosto" é diferente
de "eu gosto de você" no que diz respeito àquilo
que está sendo destacado: de você eu gosto, dela não.
No português a ordem das palavras numa frase é relativamente
flexível. A alteração da ordem tem normalmente
algum efeito estilístico.
Tomemos um exemplo, extraído da canção
"Zé Ninguém", gravada pelo Biquíni Cavadão:
... Quem foi que disse que a
justiça tarda, mas não falha?
Que, se eu não for um bom menino, Deus vai castigar!
Os dias passam lentos
aos meses seguem os aumentos
cada dia eu levo um tiro que sai pela culatra
eu não sou ministro, eu não sou magnata
eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém
aqui embaixo, as leis são diferentes...
Você notou a frase "aos meses seguem
os aumentos" ( aos = a + os a = preposição
)?
Nessa frase houve uma inversão na ordem,
e é possível rastrear a intenção que a gerou.
Observe antes, porém, que, para que não houvesse ambigüidade,
o letrista preposicionou o objeto direto "os meses". Do contrário,
este poderia passar como sujeito da oração (como identificaríamos
claramente o sujeito na construção "os meses seguem
os aumentos"?). O objeto direto preposicionado é um recurso
para destacar, sem margem a dúvidas, o sujeito da oração.
Mas qual teria sido a intenção de
inverter a ordem dos termos na oração? Na ordem direta
seria "os aumentos seguem os meses", ou seja, os meses vão
correndo e, com eles, os aumentos. Nessa seqüência, não
haveria rima entre os termos "lentos" e "aumentos".
Alterando a ordem das palavras, o compositor obteve um efeito expressivo,
a rima. Trata-se de um recurso estilístico perfeitamente possível.
É a estrutura frasal se flexibilizando para atender àquilo
que efetivamente se quer dizer.
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