
Cena do filme "O Buraco da Agulha" |
Um dos temas mais freqüentes nas
telas de cinema a partir da década de 60 é a espionagem.
Cineastas americanos e europeus produziram aventuras, dramas e comédias
com espiões dos mais diversos tipos. Quando o assunto é
espionagem, a primeira coisa que geralmente nos vem à cabeça
é a figura do superespião James Bond. "Moscou Contra
007" é o segundo filme da série baseada nos livros de
Ian Fleming, ele mesmo um ex-agente britânico em Moscou, nos
anos 50. |
Os filmes de James Bond, feitos na Inglaterra, estão
diretamente ligados ao período de tensão entre as superpotências,
e dão uma idéia da importância do cinema no cenário
da Guerra Fria. Mostram as aventuras de um sedutor espião ocidental
em luta contra vilões aparentemente a serviço da União
Soviética. Por mais que se fale em agentes americanos e soviéticos,
curiosamente o espião mais célebre do cinema é britânico
e está a serviço de Sua Majestade.
É verdade que, no mundo real, os serviços secretos europeus
estiveram bem ativos durante o período da Guerra Fria. Mas as duas
grandes forças da comunidade de informações eram mesmo
a CIA e a KGB. E é sobre o mundo real da espionagem que vamos falar
hoje. Um mundo desprovido de conceitos como moral e ética, em que
para cada espião infiltrado num país estrangeiro existia um
batalhão de funcionários públicos anônimos, encarregados
de coletar dados na imprensa e tabular informações fornecidas
por embaixadas e consulados. Uma rotina que fazia parte de uma história
ainda muito mal contada.
Espionagem, ofício antigo
Foi durante a Guerra Fria que a espionagem adquiriu
a importância que tem hoje. Mas não é uma atividade
recente na história da humanidade. Entre os hititas, povo indo-europeu
que há mais de 3 mil anos habitava a região onde hoje é
a Turquia, já circulavam informes sobre os inimigos, escritos em
pedaços de argila. O primeiro tratado conhecido sobre espionagem
é do ano 510 antes de Cristo. Chama-se "Princípios da Guerra",
e foi elaborado pelo estrategista chinês Sun-tzu. Mas foram necessários
dois milênios até que os Estados investissem em agências
de espionagem e informação.
Até o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, os poucos serviços
secretos operavam de forma precária e amadorística. Na época,
não havia uma agência desse tipo nos Estados Unidos. Na França
e na Grã-Bretanha, os serviços secretos estavam paralisados
por escândalos políticos. Na Rússia, as atividades
de espionagem da era czarista desmoronavam sob os efeitos da guerra e
da revolução comunista. E, entre os alemães, o serviço
razoavelmente eficiente era desprezado pelos generais prussianos, mais
interessados no poderio militar.
Alguns historiadores acreditam que, se as potências da época
contassem com uma rede eficiente de informações, a Primeira
Guerra poderia ter sido evitada. Ninguém esperava pelos desdobramentos
dos conflitos nos Bálcãs, que culminaram numa guerra global
até certo ponto involuntária.
Já na Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, o dirigente soviético
Josef Stalin teria menosprezado uma importante informação
de um de seus espiões, que fornecia exatamente o dia e a hora em
que Adolf Hitler iniciaria a invasão da União Soviética.
Stalin já havia condenado à morte seus mais respeitados
estrategistas, entre 1938 e 1939. Assim, a ofensiva nazista, em junho
de 41, apanhou os soviéticos de surpresa e sem seus melhores quadros
militares.
Da mesma forma, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, não
teria dado crédito às informações sobre um
provável ataque do exército japonês à base
americana de Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 41.
Século XX: nova força à espionagem
Esses episódios, que poderiam ter sido
evitados através de um sistema de informações, foram
decisivos para os investimentos em serviços de espionagem. A formação
de dois grandes blocos econômicos depois da Segunda Guerra, liderados
por Estados Unidos e União Soviética, também foi
um fator importante para o desenvolvimento da chamada comunidade de informações.
Pela primeira vez na história, o planeta havia se tornado uma arena
gigante, onde duas superpotências desafiavam-se mutuamente. Nesse
novo cenário, os inimigos desenvolviam tecnologias de destruição
cada vez mais poderosas, destrutivas, rápidas e eficazes.
Sem dúvida, forças tão formidáveis exigiam
um balanço permanente e atualizado de ambos os lados. Cada superpotência
precisava estar sempre por dentro das conquistas tecnológicas do
adversário. Assim, chegamos ao ponto que nos interessa: o desenvolvimento
das técnicas de espionagem no período da Guerra Fria.
Espionagem e revolução
Na União Soviética, as relações
internacionais no início da Guerra Fria estimularam a modernização
do serviço secreto, criado em 1917 durante o processo revolucionário.
Na época, chamava-se Cheka, iniciais de "Comitê Contra Atos
de Sabotagem e Contra-Revolução". Como Cheka, o serviço
combateu as atividades internas contrárias à revolução
comunista. Era o período de guerra civil, que se prolongou até
1921. Em 1922, ano da criação da União Soviética,
passou a se chamar GPU, iniciais de "Administração Política
do Estado". A GPU tornou-se a polícia política de um Estado
já consolidado, e investiu contra os inimigos clandestinos do novo
regime.
Nos anos 30, o serviço passou a atuar diretamente sob as ordens
de Stalin e acabou rebatizado como NKVD, "Comissariado do Povo para Assuntos
Internos". Foi um período de intensa perseguição
aos adversários políticos do líder soviético,
dentro do próprio partido comunista. Muitos deles foram torturados
e executados.
| O caso mais célebre é
o do ex-chefe do Exército Vermelho, Leon Trotsky. Exilado no
México, ele foi assassinado em 1940 por Ramon Mercader, um
ativista espanhol supostamente instruído pelo NKVD. O atentado
contra Trotsky foi uma das poucas ações internacionais
atribuídas ao serviço secreto soviético, na época.
Até o final da Segunda Guerra, as principais funções
do NKVD relacionavam-se ao controle e à repressão dentro
do próprio país. |

Trotsky foi morto quando já estava exilado |
Anos 50: surge a KGB
Com a divisão do mundo em blocos e o início
da Guerra Fria, o sistema de informações soviético
foi gradativamente ampliando sua presença em outros países.
O ano de 1954 foi decisivo nesse processo. Logo após a morte de
Stalin, em 53, o chefe da NKVD, Laurenti Beria, tentou tomar o poder.
Acabou executado por ordem da cúpula do Partido Comunista, que
reformulou toda a estrutura do serviço secreto. A KGB surgia, nesse
cenário, com a missão de conciliar a manutenção
do controle interno com uma ação mais efetiva fora do território
soviético.
A situação era tensa na Europa. Forças da OTAN, Organização
do Tratado do Atlântico Norte, criada em 1949, movimentavam-se nas
bases militares instaladas nas fronteiras com a Europa Oriental. No bloco
socialista, havia sinais de insatisfação popular na Alemanha
Oriental, Hungria e Polônia.
Numa tentativa de unir os países do bloco e fazer frente à
OTAN, Moscou tratou de criar, em 1955, o Pacto de Varsóvia. A KGB
passou a operar dentro dos aparelhos de Estado e dos serviços secretos
desses países, e também na imprensa e nas associações
de trabalhadores. A central soviética de informação
e espionagem tornou-se uma sombra onipresente em todas as instâncias
da sociedade.

Tanque em Budapeste: ação da KGB |
Em meio a denúncias de assassinatos
e de violação sistemática dos direitos humanos
contra presos políticos, a KGB coordenou, em 1956, a invasão
da Hungria pelos tanques do Pacto de Varsóvia. No mesmo ano,
orientou a repressão de um movimento reformista na Polônia.
A forte influência da KGB junto à cúpula do Pacto
de Varsóvia foi decisiva para a iniciativa do governo da Alemanha
Oriental de erguer o Muro de Berlim, em 1961. |
"Podemos afirmar que a KGB era a própria alma do sistema soviético. é simples mostrar isso. No auge do império comunista, após a Segunda Guerra, a União Soviética era formada por 15 repúblicas que abrangiam um território de 22 milhões de km² , quase três vezes o tamanho do Brasil, e com uma população de mais de 200 milhões de habitantes. Essa população era composta por povos que falavam pelo menos 300 idiomas e professavam todas as grandes religiões conhecidas. Apesar dessa tremenda diversidade cultural, e das diferenças econômicas e históricas, só havia um partido político legalizado: o Partido Comunista. É claro que a ditadura de partido único só podia se manter às custas da mais feroz repressão. Sem a KGB, não existiria a União Soviética."
José Arbex Jr. jornalista
Continua
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