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Na época em que
Mikhail Gorbatchev e George Bush fizeram a reunião de cúpula
na Ilha de Malta, no Mar Mediterrâneo, em dezembro de 1989, o mundo
ainda sofria o impacto da derrubada do muro de Berlim, ocorrida em novembro
do mesmo ano. A crise que o socialismo atravessava parecia prenunciar a
falência do bloco soviético. Naquele finalzinho de década,
os Estados Unidos apareciam diante do mundo como os vencedores da Guerra
Fria, como a única superpotência, aquela que deveria ter a
voz decisiva na consolidação da nova ordem mundial que surgia
em meio aos escombros do muro de Berlim.
A reunificação das
Alemanhas
Às vésperas do
ano de 1990, ainda existiam duas Alemanhas e continuava de pé o Pacto
de Varsóvia, a aliança militar do bloco socialista da qual
a Alemanha Oriental fazia parte. Inicialmente, a proposta de reunificação
das Alemanhas não foi bem recebida pela França, Grã-Bretanha
e outros países europeus, que temiam o ressurgimento da grande potência
germânica, berço do nazismo e de ambições históricas
de hegemonia sobre a Europa. Dentro da própria Alemanha Ocidental,
a oposição argumentava que o lado capitalista teria de arcar
com um preço muito alto para modernizar as empresas obsoletas e adaptar
as estruturas sociais da Alemanha Oriental.
Em 7 de junho de 1990, o Pacto de Varsóvia anunciou que deixaria
de exercer suas funções militares, o que representava, na
prática, o fim da aliança socialista. Acabava, assim, o único
grande obstáculo geopolítico à reunificação
das duas Alemanhas. Exatamente em 3 de outubro de 90, a Alemanha Oriental
deixava de existir. Com o apoio dos Estados Unidos, a potência germânica
renascia no coração de uma Europa perplexa e preocupada. Nessa
época, a União Soviética atravessava uma das piores
crises de sua história. O líder Mikhail Gorbatchev era acusado
de traidor por seus adversários. Além disso, ganhavam força
os movimentos de independência nas 15 repúblicas soviéticas.
O país estava politicamente paralisado, ao passo que uma crise econômica
sem precedentes afetava o nível de vida da população.
A União Soviética ainda era uma potência militar, mas
já não possuía a estatura de uma superpotência.
EUA invadem o Panamá

Desembarque norte-americano no Panamá |
Um claro sinal das novas relações
internacionais havia sido dado logo após a Cúpula de
Malta. O governo de Moscou, assim como as outras potências,
esboçara um tímido protesto à invasão
norte-americana no Panamá, em dezembro de 89. |
| Oficialmente, os Estados Unidos invadiram o Panamá para depor e prender o general Manoel Noriega, homem-forte do país, acusado de ser um narcotraficante. Ironicamente, Noriega tinha uma vasta folha de serviços prestados à CIA, a Agência Central de Inteligência, durante os anos 70. |

Noriega: proximidade com a CIA |
Do ponto de vista geopolítico,
a invasão tinha motivos mais consistentes. No dia 1º de janeiro de
1990 venceria o prazo para que os Estados Unidos entregassem ao governo
panamenho o controle administrativo do Canal do Panamá, que liga
o Oceano Atlântico ao Pacífico. A Casa Branca não estava
disposta a cumprir o prazo, estabelecido num acordo em 1977. O Canal do
Panamá, além de sua importância econômica, tinha
um forte significado estratégico, como base do Comando Sul do Exército
dos Estados Unidos.

Canal do Panamá: EUA mantêm o controle |
Na época da Guerra Fria, o Comando Sul
tinha como missão lutar contra o avanço comunista na
América Central. Depois que o comunismo deixou de ser uma ameaça
a Washington, o combate ao narcotráfico passou a ser a justificativa
norte-americana para manter a base e o controle sobre o Canal do Panamá. |
No final dos anos 80 e início
dos 90, os Estados Unidos adotaram o combate ao narcotráfico como
a nova bandeira de luta do "bem contra o mal". Em nome dela, os norte-americanos
procuravam justificar ingerências na América Latina, especialmente
no Brasil, Colômbia, Bolívia, Peru e Equador. Enfim, nos países
da região da Amazônia internacional, uma reserva natural estratégica
que, sem dúvida, será de importância crucial no próximo
século.
A crise no Golfo Pérsico
A invasão do Panamá
foi uma das primeiras ações internacionais norte-americanas
depois da queda do muro de Berlim. Naquele momento, já estava evidente
que a Casa Branca tinha nas mãos o poder de articular todas as iniciativas
na defesa de seus interesses. Mas foi durante a crise do Golfo Pérsico
que os Estados Unidos consolidaram seu novo papel no cenário mundial.
Em agosto de 1990, o ditador iraquiano Saddam Hussein ordenou a invasão
e ocupação do vizinho Kuwait, sob a alegação
de que historicamente o pequeno país fazia parte do Iraque. O presidente
norte-americano, George Bush, reagiu energicamente. Exigiu que a Organização
das Nações Unidas, a ONU, adotasse uma série de medidas
punitivas, incluindo um amplo boicote econômico ao Iraque. Hussein
recebeu um ultimato: teria de sair do Kuwait até o dia 15 de janeiro
de 1990. A crise no Golfo Pérsico evidenciava a nova postura diplomática
dos Estados Unidos.
Nos tempos da Guerra Fria, as principais questões mundiais eram decididas
pelo Conselho de Segurança da ONU, um âmbito de decisões
em que Moscou e Washington exercitavam seu poder de veto de acordo com o
vai-e-vem das tensões entre as superpotências. Na crise do
golfo, esse jogo já não existia. Os Estados Unidos tomavam
todas as iniciativas. Entre o a invasão do Kuwait, em agosto de 90,
e o fim do prazo para a retirada dos iraquianos, em janeiro de 91, o presidente
Bush enviou 500 mil soldados americanos ao Golfo Pérsico.
Durante cinco meses, as TVs, revistas e jornais dos Estados Unidos e de
todo o mundo ocidental veicularam fotos e imagens dos soldados americanos
despedindo-se da família no embarque com destino à área
de conflito. A mesma coisa não ocorria com o outro lado, o lado humano
dos soldados árabes, que pouco era mostrado.
"Essa operação
de encobrimento da face humana dos árabes correspondeu a uma estratégia
dos Estados Unidos. Depois que o comunismo acabou, os Estados Unidos precisavam
convencer o mundo de que havia um novo inimigo universal, um novo representante
das potências do mal, um novo Satã. A Guerra do Golfo forneceu
essa oportunidade aos americanos, quando Saddam Hussein foi apresentado
como representante do Islã, uma religião de fanáticos,
uma religião que queria destruir o Ocidente, que queria reeditar
o nazismo.
Foi dessa forma que os norte-americanos pretenderam
convencer o mundo de que os Estados Unidos, a grande potência
vencedora da Guerra Fria, era também a guardiã dos valores
democráticos, dos valores ocidentais."
José Arbex Jr.
jornalista
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Soldado americano na Guerra do Golfo |
O ataque contra o Iraque começou na noite de
16 para 17 de janeiro de 1991. Durante quarenta dias, mísseis disparados
de aviões americanos encheram de luz os céus de Bagdá,
a capital iraquiana. Calcula-se que só na primeira semana as forças
dos Estados Unidos tenham despejado sobre Bagdá uma quantidade
de bombas equivalente a sete vezes a potência da bomba que destruiu
a cidade japonesa de Hiroshima, em 1945.
EUA obtêm apoio popular inédito

Imagens da guerra: transmissão
ao vivo
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A Guerra do Golfo foi
a primeira transmitida ao vivo pela televisão. As novas tecnologias
de transmissão de imagens, com satélites e vias de fibra
ótica, permitiram o crescimento de redes mundiais de telejornalismo,
como a CNN, que se destacaram durante o conflito. |
Apesar da transmissão
ao vivo e da violência dos bombardeios, os telespectadores pouco
viram cenas de morte. Na época, surgiu a versão de que as
armas utilizadas nunca erravam o alvo, de que atingiam objetivos militares
com grande precisão, poupando vidas humanas. Hoje, sabe-se que
morreram cerca de 170 mil iraquianos na Guerra do Golfo, a maioria civis.
É natural que os Estados Unidos fizessem todo o possível
para manter a opinião pública a seu favor. Todos os governos
fazem isso em tempo de guerra. Mas é importante observarmos a facilidade
com que a versão norte-americana, de uma "guerra sem sofrimento",
foi aceita pela opinião pública mundial, em particular a
dos próprios Estados Unidos. Afinal, a mobilização
da opinião pública americana havia sido decisiva para a
derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, no final dos anos
60. E, duas décadas depois, recebia como heróis os soldados
de uma guerra violenta e desigual. Qual a razão de uma mudança
de comportamento tão profunda ? A resposta a essa questão
é importante, porque permite estabelecer alguns aspectos fundamentais
da ordem mundial no pós-Guerra Fria.
Neoliberalismo e decadência
de valores
Durante a Guerra Fria, havia
um claro choque entre dois sistemas de valores econômicos, políticos,
sociais e ideológicos. Nos anos 60, a juventude questionou todos
os valores, tanto os socialistas quanto os capitalistas. O discurso pela
paz e contra a guerra, contra o racismo e contra a hipocrisia indicava um
caminho novo. Mas nos anos 70 e 80 as propostas pacifistas perderam a força.
Os grupos de rock, as drogas e o sexo tornaram-se uma grande indústria
lucrativa. Perderam o seu caráter de protesto. A humanidade ingressou
na década de 80 imersa numa grande crise de valores.
Nos Estados Unidos, o presidente Ronald Reagan, eleito pela primeira vez
em 1980, introduziu o neoliberalismo, uma política de valorização
do talento, da força e da capacidade individuais, em detrimento dos
valores coletivos e sociais. Exemplo dessa política foi a mudança
tributária efetuada por Reagan em 1981. Ele reduziu drasticamente
o imposto cobrado dos ricos e aumentou o dos pobres, sob a alegação
de que os mais desfavorecidos utilizavam mais os serviços do Estado
e, por isso, deveriam pagar mais. A chamada "era Reagan" estimulou a formação
de uma nova geração de jovens profissionais urbanos, os "yuppies",
mais preocupados em subir na vida do que com questões sociais. Muitos
jovens, dentro e fora dos Estados Unidos, abraçaram as perspectivas
individualistas do neoliberalismo porque não enxergavam outras alternativas.
Assim, no final dos anos 80 a visão neoliberal já era dominante
no mundo ocidental. O fim do socialismo acentuou a força do neoliberalismo.
O capitalismo aparecia como o grande vencedor, como a forma ideal de organizar
a vida, a política e a economia do planeta. A própria realidade
mundial, no entanto, desmentia esse otimismo e fazia do neoliberalismo um
sintoma da impotência do ser humano diante da crescente miséria
no mundo, causada pelas desigualdades, pelas injustiças e pelas guerras.
Foi nesse contexto de tendência neoliberal que as disputas econômicas
se multiplicaram, com a formação ou consolidação
dos blocos econômicos nos anos seguintes ao fim da Guerra Fria.
Continua
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