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(Continuação)
Nicarágua
Nem só de golpes de direita viveu a América
Latina nos anos da Guerra Fria. Em 1979, um pequeno país da América
Central desafiou o poderio norte-americano e fez sua revolução
nitidamente popular chegar à vitória: a Nicarágua.
A revolução sandinista marcou mais um capítulo na
longa história de luta da Nicarágua pela sua soberania.
A ingerência dos Estados Unidos sobre a vida política da
Nicarágua vem desde o século XIX. No começo do século
XX, o governo de Washington ampliou sua influência, interessado
em proteger seu monopólio sobre o canal entre os oceanos Atlântico
e Pacífico, inaugurado no vizinho Panamá em 1914.A ostensiva
presença norte-americana na Nicarágua gerou a criação
de movimentos nacionalistas de resistência.
O principal líder guerrilheiro, Augusto César Sandino, foi
morto em 1934 por ordem do então comandante da Guarda Nacional
nicaragüense, Anastasio Somoza Garcia. Em 1936, Somoza venceu as
eleições presidenciais e inaugurou uma ditadura dinástica
que atravessaria quatro décadas. Em 62, três anos depois
da revolução cubana, o intelectual marxista Carlos Fonseca
lançou o movimento guerrilheiro Frente Sandinista de Libertação
Nacional, FSLN, com o objetivo de derrubar a ditadura da família
Somoza e implantar um regime socialista no país. Em poucos anos
a Frente Sandinista conquistou a simpatia da população,
especialmente dos camponeses, que viviam em condições miseráveis
e permanentemente aterrorizados pela Guarda Nacional somozista. Nos anos
70, com a exacerbação da tirania e da corrupção
do governo, até mesmo os setores burgueses e da classe média
começaram a manifestar simpatia pelos sandinistas.
Vitória sandinista

Sandinistas comemoram vitória | A crise atingiu um dos pontos mais altos em 1978, quando o jornalista Pedro Joaquín Chamorro, diretor do jornal La Prensa, foi assassinado por agentes de Somoza. Foi o estopim de uma insurreição nacional liderada pelos sandinistas. Os guerrilheiros derrotaram a Guarda Nacional e tomaram o poder em julho de 79. Anastasio Somoza Debayle, ditador desde 1967, conseguiu fugir do país, mas seria morto num atentado em 1980 em Assunção, no Paraguai. |
O novo governo, encabeçado por Daniel Ortega e formado por sandinistas e setores liberais, expropriou todos os bens da família Somoza, nacionalizou bancos e companhias de seguro e passou grande parte da economia para o controle do Estado.
A convivência pacífica de liberais e sandinistas duraria pouco. Em 1980, Violeta Chamorro e Alfonso Robelo, os dois liberais da junta, romperam com o governo e passaram para a oposição. Estava cada vez mais claro que os sandinistas caminhavam na direção de um regime socialista simpático a Cuba e à União Soviética.
Reagan: anticomunismo fervoroso
Essa idéia era intolerável para o governo conservador do presidente norte-americano Ronald Reagan. Ainda mais porque movimentos guerrilheiros esquerdistas ameaçavam tomar o poder em outros países da América Central, em particular em El Salvador e na Guatemala. A situação era explosiva.
Em 1981, os Estados Unidos suspenderam a ajuda econômica à Nicarágua, acusando os sandinistas de apoio à guerrilha esquerdista de El Salvador. Ao mesmo tempo, passaram a financiar os "contras", guerrilheiros anti-sandinistas recrutados entre os membros da antiga Guarda Nacional, que fustigavam os sandinistas a partir de bases instaladas em Honduras.
Em 1983, o governo de Washington enviou uma frota naval para patrulhar a costa nicaragüense, exatamente como havia feito com Cuba a partir dos anos 60. Em outubro de 83, Reagan ordenou a invasão de Granada, uma pequena ilha da América Central próxima da costa da Venezuela. Na época, a ação foi interpretada como um alerta à Nicarágua.
| O pretexto para a invasão foi garantir a segurança de cidadãos norte-americanos, supostamente em risco depois do golpe de Estado que derrubou o primeiro-ministro Maurice Bishop. As tropas norte-americanas, no entanto, desmantelaram a formação do novo governo, de tendência socialista, liderado pelo general Hudson Austin. |

Invasão americana à Granada |
As medidas do presidente norte-americano
Ronald Reagan faziam parte de uma política externa inflexível
com relação à União Soviética e ao comunismo
de modo geral. Um exemplo da propaganda anticomunista da chamada "era Reagan"
foi a série de filmes do personagem "Rambo", um herói truculento
cuja principal missão era exterminar comunistas no continente asiático.
Escândalo Irã-Contras
A disposição anticomunista da administração Reagan acabou gerando episódios como o escândalo "Irã-Contras", também conhecido como "Irangate", uma operação clandestina e ilegal montada pelo governo para ajudar a guerrilha anti-sandinista da Nicarágua. A operação veio a público em novembro de 86, quando a imprensa americana denunciou as negociações secretas entre a Casa Branca e o governo xiita do Irã.
De acordo com as denúncias, o governo iraniano adquiriu armas dos Estados Unidos em troca da libertação de reféns norte-americanos presos por xiitas no Líbano. Além disso, o dinheiro da compra dos armamentos foi depositado na Suíça, em contas movimentadas pelos "contras" da Nicarágua. Washington, por sua vez, além de armar os muçulmanos xiitas, comprometeu-se a liberar bilhões de dólares do Irã congelados em bancos americanos desde 79, quando a revolução iraniana derrubou o xá Reza Pahlevi e levou o aiatolá Khomeini ao poder.

Ronald Reagan | A operação contrariava uma decisão do próprio Congresso americano, que havia proibido qualquer ajuda aos contras da Nicarágua. Pressionado pela imprensa e pela opinião pública, o governo Reagan acabou admitindo sua participação no caso. |
Em conseqüência, o chefe do Conselho de Segurança Nacional, almirante John Poindexter, e seu subordinado, coronel Oliver North, foram forçados a renunciar a seus cargos. As investigações apontaram ainda o envolvimento de outros funcionários de alto escalão do governo, incluindo o então vice-presidente George Bush.
Durante várias semanas, a TV americana transmitiu ao vivo os trabalhos da comissão de investigação, que descobriu uma complexa rede envolvendo contrabandistas de armas, especulação financeira em paraísos fiscais e jogos de influência e de poder. O coronel North assumiu toda a responsabilidade pela operação.
Uma das principais conseqüências do escândalo "Irã-contras" foi a redução da ajuda americana aos guerrilheiros anti-sandinistas da Nicarágua. Dali para a frente, diminuiu sensivelmente o peso da influência dos Estados Unidos sobre o rumo dos acontecimentos em Manágua.

Violeta Chamorro | Em 1988, o governo sandinista assinou uma trégua com os "contras". Com a queda do Muro de Berlim, em 89, e enfrentando índices de inflação de 33 mil por cento ao ano, os sandinistas convocaram eleições gerais em março de 1990. Com a vitória de Violeta Chamorro, da União Nacional Opositora, os Estados Unidos cancelaram o embargo econômico e os "contras" suspenderam as hostilidades. |
Cuba e a glasnost: crise
econômica
A derrota do sandinismo lançou dúvidas sobre
o futuro da vizinha Cuba. Além de enfrentar o embargo dos Estados
Unidos, o presidente Fidel Castro viu a crise econômica cubana agravar-se
com a redução da ajuda soviética. Desde 1985, ano
da ascensão de Mikhail Gorbatchev ao poder em Moscou, os soviéticos
haviam reduzido substancialmente o apoio financeiro a Cuba. A ajuda de
Moscou foi integralmente cortada em 91, quando a própria União
Soviética deixou de existir. E, para complicar ainda mais as coisas
para Fidel, o Congresso americano aprovou, em 92, a emenda Torricelli,
apertando ainda mais o embargo comercial contra Cuba. Em janeiro de 98,
a ilha de Fidel recebeu a visita do Papa João Paulo II. Durante
uma semana, o sumo pontífice celebrou missas campais e manteve
reuniões com o presidente cubano. A visita teve dois objetivos
principais, segundo observadores: por um lado, exortar Castro a democratizar
a política interna do país. E, por outro lado, pressionar
os Estados Unidos pelo abrandamento do embargo comercial imposto contra
a ilha.
Justamente por representar uma exceção no Ocidente, o regime cubano não interferiu no novo arranjo das forças nas Américas. Os anos pós-Guerra Fria caracterizam-se como um período de mudanças somente na atuação e na retórica de Washington para a América Latina, e de manutenção da absoluta hegemonia geopolítica dos Estados Unidos no continente americano.
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