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Na paisagem inóspita,
um grande personagem: O
SERTANEJO
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O sertão, com seus ventos
bíblicos, calmarias pesadas e noites frias, impressiona. Cortado
por veredas e árvores retorcidas em desespero, todo ele são
monótonos caminhos de caatingas e areais ressequidos. As "pueiras",
lagoas mortas, de aspectos lúgubres, são o único
oásis do sertanejo. A serra de Monte Santo, com seus tons azulados,
é uma cortina de muralha monumental. As conformações
rochosas, no ermo vazio do Bendegó, dão a ilusão
de ruínas antigas. Os grandes desmoronamentos rochosos do sertão
lembram "mares de pedras". Os rios salgados, quando secam, parecem um
fundo de mar extinto, uma impressão acentuada pelos fenômenos
ópticos do calor. Isso reforça a mítica sertaneja
de que "um dia o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão".
No sertão, a começar pelo solo
e clima, tudo é adverso. O sertanejo sobrevive porque é
uma raça forte. Assim como o cacto mais resistente, ele foi feito
para o sertão. Tem o pêlo, o corpo e a psicologia próprios
para suportar o suplício da seca. Conhece profundamente a flora
e fauna.
Cactos
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Sabe
o nome e as vantagens de cada cacto, de cada mandacaru, de cada xiquexique.
Seus pássaros: o carcará, o acauã... a asa branca.
E a natureza que ele tanto ama é sua aliada na luta
pela sobrevivência. Desidratado como as plantas, consegue viver
dias só com o trivial e um copo d'água. E ama o sertão.
Não se habitua a outro lugar. O sertão o destrói
e hipnotiza. É o homem rude e sereno acostumado desde muito
novo com a morte. Um resistente num lugar onde quase só existe
deserto e onde a água é uma miragem. |
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o
raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. A sua aparência,
entretanto, no primeiro lance de vista, revela o contrário(...).
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasimodo
(...) é o homem permanentemente fatigado (...) Entretanto, toda
essa aparência de cansaço ilude (...) No revés o homem
transfigura-se . (...) e da figura vulgar do tabaréu canhestro
reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado
e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade
extraordinárias."
Trecho do livro "Os Sertões".
| Ao
tentar compreender a psicologia do sertanejo, Euclides da Cunha fez
um ensaio revelador sobre a formação do homem brasileiro.
Desmistificou o pensamento vigente entre as elites do período,
de que somente os brancos de origem européia eram legítimos
representantes da nação. Mostrou que não existe
no país raça branca pura, mas uma infinidade de combinações
multirraciais. Previu um destino trágico para o Brasil, se
o país continuasse a não levar em conta as diversas
raças que o formaram. Mostrou que o Brasil tinha contradições
e diferenças étnicas e culturais extremas. Concluiu
que havia uma necessidade imperiosa de se inventar uma raça.
Caso contrário, o Brasil seria candidato a desaparecer. Para
Euclides da Cunha, a mestiçagem enfraquecia o indivíduo
e implicava uma perda de identidade - um problema para a concepção
de nação. Para ele, o mestiço do litoral é
degenerado e o sertanejo, retrógrado. No caso do sertão,
porém, considerou que só esse mestiço se adaptaria
à região. |
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"O crescimento do séquito
de Antônio Conselheiro foi acentuado depois da libertação
dos escravos, (...) Este fenômeno não tinha sido observado
pelo próprio Euclides da Cunha, mas está nos documentos
da época, (...) e isso cria um estado de desentendimento entre
o Conselheiro e os fazendeiros. Você não encontra nenhuma
reclamação por causa de terra, mas por causa de mão-de-obra."
Prof. José Calasans - fundador do Núcleo Sertão
da UFBA, Universidade Federal da Bahia.
Sertanejo:
origens
No sertão, a
mistura de raças deu-se mais entre brancos e índios. O jesuíta,
o vaqueiro e o bandeirante foram os primeiros habitantes brancos que migraram
para a região. Deram origem aos tipos populares que compõem
o sertão: o beato, o cangaceiro e o jagunço. Ali estão
todos, com suas vestes características, seu apego às tradições
mais remotas, o sentimento religioso levado até o fanatismo e o seu
exagerado senso de honra.
"Eu tenho orgulho
de ser filha de Canudos! Tenho orgulho, mesmo! Me sinto feliz com essa
palavra: Canudos não se rendeu ! Morreram todos, mas não
se renderam!...
D. Zefinha.
Tanto o cangaceiro
quanto o jagunço são guerreiros. Homens de armas. O cangaceiro
age em bando e por conta própria, vive como andarilho pelo deserto,
obedecendo às leis do chefe do bando. O jagunço muitas vezes
age sozinho. Protege alguém, que tanto pode ser um coronel como
uma pessoa com quem tem uma dívida de honra. O fazendeiro dos sertões
vive no litoral, longe de suas propriedades; quem cuida de suas terras
é o vaqueiro, de fidelidade assombrosa e submissão inconsciente
e servil. Mas na adversidade sua roupa de couro pode se tornar a armadura
de jagunço. Qualquer vaqueiro sabe lutar e lidar com armas. Oculta
em si o guerreiro. As sertanejas são diferentes das mulheres do
litoral: são rezadeiras, rendeiras, mocinhas ingênuas, bruxas
velhas e alcoviteiras. Mulheres de coragem e encrenqueiras.
"Algumas mulheres
lá em Canudos eram terríveis! Brigavam na trincheira, mulheres
brigando a bem do Conselheiro!"
Ioiô da Professora.
A devoção
do matuto
Descendentes dos antigos
jesuítas, os padres, os beatos e os conselheiros dão conselhos
e são beatos da categoria mais alta entre a população.
Padres e beatos podem se tornar líderes messiânicos como o
padre Cícero, de Juazeiro do Norte, de grande influência no
sertão. Rebeliões religiosas são constantes na história
do sertão: um universo primitivo, impregnado de um fanatismo rude
e impressionante, originário, segundo o autor, "do que existe de
pior nas crenças místicas das três raças que
o formaram". Sob tais influências, o matuto vai da extrema brutalidade
ao máximo devotamento. Apesar da coragem, acredita em todos os mal-assombramentos.
Está propenso a ser um "desvairado pelo fanatismo e um transfigurado
pela fé." Por isso é um seguidor de messias fanáticos
que o arrastam e endoidecem.
| Euclides
da Cunha mostrou que um universo de tal natureza era governado por
leis próprias. Demonstrou que a Campanha de Canudos foi absurda,
pois a população não era monarquista, como o
exército acreditava. Pregar contra a república era apenas
uma variante do delírio religioso de Antônio Conselheiro.
Uma sociedade tão primitiva era incapaz de compreender tanto
a forma republicana como a monarquia constitucional. Só aceitava
o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro. Conselheiro
foi esse chefe sacerdotal. Anos mais tarde, o cangaceiro Lampião
seria o chefe guerreiro. |
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