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"Aquela Campanha de Canudos lembra
um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo".
Euclides da Cunha
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Em 1896, no sertão da Bahia,
teve início um dos acontecimentos mais impressionantes e sangrentos
de toda a história do Brasil: a Campanha de Canudos. Quatro expedições
foram enviadas durante um ano contra mais de vinte mil habitantes da região:
índios, mulatos, caboclos, pretos... sertanejos dirigidos pelo beato
Antônio Conselheiro e munidos apenas de paus, pedras e armas rústicas.
Os soldados traziam metralhadoras, granadas e canhões. Estavam poderosamente
armados e eram numericamente muitas vezes superiores aos revoltosos, mas
perdiam todas as batalhas. A resistência do sertanejo assombrava o
país, e a derrota de Canudos tornou-se para o Exército e para
a República uma questão de honra nacional.
"Antônio Conselheiro chegou aqui fazendo muitos milagres, todo
mundo se incutindo com as graças dele, achando que ele era um verdadeiro
profeta de Deus. Mas "deixa" que ele era revoltado contra a República.
Ele não queria a república, queria a monarquia, o tempo
dos reis da monarquia. Quando achou-se com o povo do nordeste ao lado
dele, ele que se revoltou contra o governo. Aí o governo da Bahia
teve de pedir auxílio ao governo do Rio de Janeiro, que mandou
o canhão de guerra e o exército de lá. Veio com um
tal de Marechal Bittencourt, que foi quem venceu Antônio Conselheiro."
Vitalício José dos Santos, romeiro de Monte Santo
- nascido em 1936.
Época de mudanças
A passagem da monarquia para a república,
no final do século XIX, foi um período de muita agitação
nacional. A libertação dos escravos em 1888 fora o golpe fatal
na monarquia. No ano seguinte, o golpe militar do dia 15 de novembro, liderado
pelo marechal Deodoro da Fonseca, proclamou a República. O novo regime
trazia a promessa de uma organização de homens livres e iguais
perante a lei. As eleições democráticas dariam a todos
o direito político de escolher seus dirigentes, e o trabalho livre
traria salários. Eram mudanças radicais, que pareciam acabar
com antigos privilégios. Já se esperava um levante monarquista.
Mas nunca de um grupo de desvalidos... Canudos representou o imprevisto.
Para o governo, o nordeste só poderia se beneficiar com a nova ordem.
No entanto, em pleno sertão, homens lutavam até a morte em
nome dessa rejeição.
O desconhecido sertão
Até o
início da guerra, as elites do litoral e do sul ignoravam o que fosse
o sertão: uma estranha pátria sem dono, abandonada pelas leis
e instituições, vivendo sob o jugo da terra e dos latifundiários.
Para compreender a revolta era necessário que o sertão viesse
à tona, numa nova tradução. Foi essa a grande proeza
do jornalista e engenheiro militar Euclides da Cunha, ao publicar seu livro
"Os Sertões", em 1902. Uma obra contundente, que destruía
o sonho brasileiro da república e da civilização branca
europeizada. O livro "Os Sertões" nasceu de uma reportagem sobre
a Guerra de Canudos para o jornal "O Estado de São Paulo". Euclides
da Cunha foi cobrir o evento, em 1897, como enviado de guerra.
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Até
a Campanha de Canudos, Euclides da Cunha foi um defensor incondicional
do novo regime. Sua história se confunde em muitos momentos
com a própria história da República. No Colégio
Aquino, onde cursou o secundário, foi aluno do grande mentor
republicano Benjamim Constant. Logo depois, Euclides ingressou no
exército - onde chegou a tenente - e também na Escola
Militar do Rio de Janeiro, que formava engenheiros para a construção
de estradas, portos e pontes. O exército, influenciado pelo
positivismo de Augusto Comte, se organizava enquanto classe. Ainda
não era republicano como conjunto, mas Euclides da Cunha sim.
Ainda em 1888, num ato de rebeldia, o escritor lançou sua espada
aos pés do ministro da Guerra, um monarquista. Foi preso e
expulso das fileiras militares. Logo depois, quando foi proclamada
a República, esse ato o transformou em herói. Euclides
da Cunha fazia parte de uma elite militar que se impôs depois
da Guerra do Paraguai. Nomes como marechal Floriano Peixoto e general
Moreira César passavam a fazer história. Estariam entre
os responsáveis pela implantação do novo regime.

Euclides da Cunha,
no exército, em 1888
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Republicano apaixonado, o escritor
desembarcou no dia 7 de setembro em Monte Santo - base da operação
militar - ao lado do ministro da Guerra, general Machado Bittencourt.
Pensava defender a república contra um levante bárbaro
e monarquista. A quarta Campanha contra Canudos estava no final.
E Euclides da Cunha jamais seria o mesmo. Caberia a ele questionar
a república que se formava e ser um dos maiores críticos
do Exército brasileiro. |
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"Um dia, à tardinha, Antônio
Conselheiro chegou aqui na Fazenda Rosada, na casa de Joaquim Macambira.
Perguntou se por ali não tinha uma capelinha onde se rezasse o terço
na boca da noite e o ofício de madrugada. Disseram que tinha, aí
avisaram aquele pessoal ao redor e também minha mãe - que
naquele tempo ainda era moça - e minha avó. Foi quando o convidaram
para vir e fazer a igreja de Santo Antônio. Continuaram a crescer
a rua, foram aumentando e começaram a ficar por ali. Tinha muita
gente, era bom para fazer negócio, bom pra ganhar dinheiro. O Conselheiro
mesmo pagava para trabalhar naquelas obras, que eram muito bem feitas.
Minha avó se chamava Josefa Maria de Jesus. E minha mãe,
Joana Batista de Jesus. Elas eram de um povo que naquele tempo gostava muito
de reza. Ave Maria! Se tinha uma trezena de Santo Antônio, elas vinham
as 13 noites! E foi nessa data que minha mãe se casou. Quando teve
o primeiro filho, Antônio Conselheiro foi quem batizou."
João Reginaldo de Mattos, "João de Régis" -
nascido em 1909.
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Um homem
de personalidade obsessiva e passional: assim foi o escritor Euclides
Rodrigues Pimenta da Cunha. Desde muito cedo levou uma vida errante
e aventureira. Muitas vezes como jornalista, outras como engenheiro
e militar, viajou por todo o país. Escreveu dois livros de
ensaios; "Contrates e Confrontos", de 1907, "A Margem da História",
de 1909, e um relatório técnico, "Peru versus Bolívia",
de 1907. Mas sua grandeza como escritor deve-se a "Os Sertões".
Sertão: Saara vermelho
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Toda a sua obra é marcada
por suas viagens. Além do nordeste, visitou o norte do
Brasil, onde chefiou a comissão brasileira que atuava
na demarcação das fronteiras. Conheceu de perto
e num curto intervalo de tempo o "inferno verde da Amazônia"
e o "saara vermelho" do sertão e da seca nordestina.
Foi um dos primeiros escritores brasileiros a mostrar a miséria
e o isolamento a que estava condenada parte dessas populações.
Desenvolveu uma literatura das massas marginalizadas do país
sem confissões ou excessos emocionais . |
Euclides da Cunha nasceu em 20 de janeiro de 1866, na fazenda Saudade,
no município de Cantagalo, estado do Rio de Janeiro. Morreu
no bairro da Piedade, aos 42 anos, assassinado pelo jovem cabo Dilermando
Reis, amante de sua mulher, Ana Maria Cunha, filha do Coronel Sólon
Ribeiro, importante personalidade da República. A vida de Euclides
da Cunha foi marcada pela tragédia. Órfão de
mãe aos 3 anos de idade, foi entregue aos cuidados de vários
parentes. Do Rio de Janeiro foi para Salvador e depois para São
Paulo. Sua vida era feita de diferentes casas, bairros e afetos entrecortados;
sua mente, uma sucessão de múltiplas paisagens. Composições
que só ajudariam o geógrafo, o sociólogo e o
antropólogo surpreendente que ele se revelaria anos mais tarde.
Desde muito cedo Euclides
da Cunha foi tido como gênio por seus contemporâneos.
Sua mente lúcida impressionava. Apesar do temperamento arredio
e turbulento, sempre soube preservar as amizades. Foi amigo de intelectuais
e de gente poderosa como o barão do Rio Branco. Mas nunca conheceu
o afeto feminino.
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| Em Canudos,
ao acompanhar a luta de perto, Euclides da Cunha logo percebeu que
a guerra tinha como razões aparentes o fanatismo religioso,
o messianismo e o sebastianismo sertanejos. Suas razões profundas
eram o latifúndio, o coronelismo, a servidão, o isolamento
cultural e a dureza do meio. Ele foi o primeiro escritor brasileiro
a diagnosticar o subdesenvolvimento do Brasil, referindo-se à
existência de dois países contraditórios: o do
litoral e o do sertão. Canudos
resultou do confronto entre esses dois Brasis, distintos entre
si no espaço e no tempo, pelo atraso de séculos em que
vivia mergulhada a sociedade rural.
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"Não faltava gente para chegar ao Conselheiro... Ele fez muitos
milagres aqui, acompanhando esse povo... era com carregamento de pedras,
era com madeiras. Sei até de um caso de parto. Ele dava remédio
para mulheres que não se despachavam. Ele dava remédio e
salvava... tudo isso... Ele fazia milagre."
João Siqueira Santos, "Ioiô da Professora" - nascido
em 1911.
"Meu avô não acreditava nesse milagroso Antônio
Conselheiro! Ele não acreditava nisso porque "como é que
um Deus, um comedor de feijão vai dizer que é Deus? Essa,
não!... Se vocês quiserem ir, que vão só! Eu
sou aquele que não vou!"
Vitalício José dos Santos.
"Papai casou-se lá em Canudos. Mamãe tinha aquela vozona
cheia... Ela era morena, mas era bonita, mesmo. Uma cabocla bonita. Cantava
na segunda voz. Minha avó e as outras tiravam hinos e ela respondia.
O Conselheiro dizia: 'Cantem meus filhos!' Homens e mulheres, todos cantavam."
Josefa dos Santos, "D. Zefinha" - nascida em 1919.
Mapa de Canudos
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Euclides da Cunha revelou ao Brasil
o que ninguém até então conhecia: que o
sertão é um só, uma pátria independente.
Canudos é uma síntese perfeita, em escala reduzida,
dos aspectos predominantes dos sertões do norte. Os sertões
de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará
e Piauí. Mostrou, com isso, que a Guerra de Canudos não
foi apenas um acontecimento local, mas um grito de revolta de
todo o sertão brasileiro. |
O escritor estruturou sua
obra em três partes: "A Terra", "O Homem" e " A Luta". Ele só
fala do conflito depois de levantar dados geográficos e culturais
da região de Canudos e do Brasil. Ainda que o capítulo
sobre a luta seja o mais lido e conhecido, a grande contribuição
do escritor foi justamente a descrição detalhada que
ele fez, em capítulos diferentes, da terra e do homem. O capítulo
"A Terra" é um dos mais singulares da prosa brasileira. De
forma literária, examina a constituição geográfica
do continente americano e da região de Canudos. São
estudados o solo, a flora, a fauna e o clima. Euclides da Cunha mostrou
que todos os reveses sertanejos estão ligados à terra,
desde a opressão semifeudal do latifúndio até
a ignorância e o isolamento a que esta parte do Brasil sempre
esteve condenada. E evidenciou que nada supera a principal calamidade
do sertão: a seca. Antes de se transformar no retirante estropiado
que abandona a região, o sertanejo encara de frente a fatalidade
e reage, numa luta indescritível. Nessa hora ele não
é mais o indolente ou o impulsivo violento, mas o herói
que tem nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias
espantosas. A princípio ele reza. O seu primeiro amparo é
de fé religiosa. Para ele, a seca é uma maldição.
Euclides da Cunha apontou a coivara índia - prática
de plantio por queimadas, que os sertanejos adotam - como uma das
causas daquele deserto. Ali, a dor do homem vem do sofrimento milenar
da terra. O escritor deixou registrado que as grandes secas do nordeste
obedecem a um ciclo de 9 a 12 anos, desde o século XVIII, numa
ordem cabalística. E até hoje esse fenômeno amplia
o misticismo do matuto. O sertanejo se sente um abandonado numa terra
barbaramente estéril e maravilhosamente exuberante.
O escritor verificou estarrecido
a transformação daquele deserto medonho nos poucos dias
de chuva, quando as matas se cobrem de verde, o mandacaru floresce...
e assistiu à transformação de espírito
que essa mudança natural provoca na alma do sertanejo. O homem
fechado e taciturno, seco como sua terra, transfigura-se em risos
e comemorações. O sertão entra em festa.
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PRÓXIMA
PÁGINA: O SERTANEJO
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