São Paulo. A terceira cidade do mundo. Uma megalópole com
doze milhões de habitantes. Esta cidade, fundada em 1554 é
hoje o espelho do Brasil. Olhando com atenção seus bairros
e sua gente é possível perceber todas as contradições
do país. O Brasil rico, moderno, que chega às vésperas
do século XXI como a oitava economia do planeta. Mas também
o Brasil que não acompanhou o progresso. O país que ainda
luta por melhores condições de vida.

Contraste em SP: centro desenvolvido...
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... e favelas na periferia |
As grandes capitais são o retrato do crescimento desordenado das
cidades brasileiras no século XX. Para se ter uma idéia,
entre 1920 e 1960 a população urbana cresceu dez vezes.
Hoje quase 70% dos brasileiros moram em cidades. As maiores transformações
foram sentidas nos centros urbanos, mas elas são reflexos do que
ocorreu no campo. Em toda a história brasileira, as mudanças
de regime pouco afetaram a ordem social. Durante o período colonial
e depois no Império e na República, o poder na zona rural
sempre foi baseado no monopólio da terra e na monocultura. Aqui
nenhuma terra foi reservada para o povo que ia formando o Brasil.
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Nos Estados Unidos as
pessoas iam para o Oeste (o que corresponderia no Brasil a Goiás,
Mato Grosso). Elas iam porque sabiam que se construíssem
uma casa, fizessem uma roça ganhavam o direito de demarcar
uma fazenda de 30 hectares. Aqui isto nunca deu certo porque
um pequeno grupo monopolizou a terra, obrigou o povo a sair
das fazendas. Eles não dividiam e sim expulsavam. Não
é que eles usem a terra. Eles não usam dez por
cento da terra que existe, mas expulsaram. E essa gente que
foi expulsa vem viver uma vida miserável na cidade.
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Em 1850 as regras de acesso à propriedade rural mudaram. A simples
ocupação e cultivo já não bastavam para garantir
a posse. O registro obrigatório acaba expulsando da terra os menos
favorecidos.
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Na periferia de São
Paulo vive gente entregue a uma pobreza total. É de se
perguntar: como tão poucos latifundiários fizeram
a infelicidade de tantos brasileiros que estão em São
Paulo, no Rio de Janeiro, no Recife, na Bahia, por toda parte?
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Centro de SP: retrato do êxodo
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Nenhum município
estava em condições de absorver o êxodo rural
num ritmo tão intenso, mas nem sempre foi assim. O país
cresceu e se desenvolveu a partir de uma economia de base agrícola,
voltada para abastecer o mercado europeu. A maioria da população
concentrava-se na zona rural. As cidade e vilas funcionavam como
entrepostos comerciais, onde o povo vivia da prestação
de serviços aos fazendeiros. Somente nas regiões mineradoras
é que se implantou uma rede urbana independente da produção
agrícola. |
Recife enriqueceu com os holandeses e com o açúcar. Na Amazônia,
Belém e Manaus se desenvolveriam como portos de exportação
dos recursos naturais extraídos da floresta. O Rio de Janeiro cresceu
como porto de escoamento do ouro. A partir de 1808 tornou-se o principal
núcleo urbano do país, com o desembarque do rei de Portugal
D. João VI e de sua corte.
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Muito sabido esse D.
João VI. Descrevem-no como um bestão que andava
numa carroça, comendo frango com as mãos e jogando
os ossos para o lado... Ele é descrito popularmente como
uma besta, mas não tem nada de besta. Enquanto os reis
de Espanha ficavam querendo pedir perdão a Napoleão
para continuar mandando, ele viu que o bom era o Brasil, não
era Portugal. Ele largou aquela velharia e veio para cá,
abriu os portos e começou a organizar o país.
Trouxe 18 mil pessoas. Essa trasladação trouxe
pra cá toda uma classe dominante já feita, muitos
deles com cursos universitários em Coimbra. É
essa gente que organiza o país.
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"A
luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes
brasileiros foi – e ainda é – a conquista de um lugar e de
um papel de participante legítimo na sociedade nacional."
O
Povo Brasileiro
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O Brasil só se tornou uma nação com a abolição
da escravatura, que concedeu aos negros, ao menos no papel, a igualdade
civil. Emancipados mas sem a terra que cultivaram por quase quatro séculos,
os ex-escravos abandonaram as fazendas e logo descobriram que não
podiam ficar em nenhum lugar. A terra tinha dono. Saindo de uma fazenda
caíam em outra, de onde eram, também, fatalmente expulsos.

Campinho da Independência (RJ):
vida tranqüila |
Houve quem
tivesse melhor sorte. É o caso de uma comunidade negra situada
no litoral fluminense. Ali, todos descendem da mesma família.
São netos, bisnetos, trinetos e tataranetos de três
mulheres escravas – como o Sr. Valentim. Ele nasceu na comunidade
e casou-se com D. Madalena, com quem teve nove filhos, que também
moram nas redondezas. Nos dias de festa todos aparecem para dar
um abraço no patriarca da família. |
Hoje estas terras se valorizaram e a família, ameaçada de
perder tudo, tenta provar que tem direito de permanecer onde nasceu. "Eu
sempre falo isso: que se desse um lote aqui, de graça, para uma
pessoa que morava na cidade, ela não aceitaria porque é
um lugar difícil. Como é que o cara que nunca fez uma horta
no lugar, nunca plantou sequer um pé de flor vai colocar três
juizes porque ele é dono daquela terra? A escritura é muito
fácil fazer... Essa terra é terra hereditária, terra
que vem de lá de trás do tempo da escravidão."
Depoimento do Sr. Valentim

D. Madalena (RJ): "Tudo é de
Deus" |
"Eu vim pra
cá com dezessete anos. O povo era muito bom. Um pessoal escuro,
mas eu senti em mim a mais negra, por causa da maneira que me acolheram.
A minha parte da família não queria mas a parte dele
fazia muito gosto. Eu acabei casando com ele e graças a Deus
tenho fé em Deus de levar nossa vida pra frente. Deus é
que abraça o mundo, tudo é filho dele, não
tem gordo, nem magro, não tem cor, não tem raça.
Tudo é dele, né?"
Depoimento
de d. Madalena
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A maior parte dos escravos concentrou-se na periferia das cidades, nos
bairros africanos. Ali eles criaram uma cultura própria, feita
de retalhos do que o povo africano guardou nos longos anos da escravidão.
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O negro guardou sobretudo
sua espiritualidade, sua religiosidade, seu sentido musical.
É nessas áreas que ele dá grandes contribuições
e ajuda o brasileiro a ser um povo singular. Quando chegam na
cidade são capazes de fazer coisas, por exemplo, a cultura
do Rio de Janeiro, a beleza do Carnaval carioca, que é
uma criação negra, a maior festa da Terra! A beleza
de Iemanjá, uma mãe de Deus que faz o amor. Você
não vai lá pedir que o marido não bata
tanto, que não seja tão filho daquilo, vai pedir
um amante gostoso. Isso é uma coisa fantástica!
Um povo que é capaz de inventar uma coisa destas! Nunca
houve depois da Grécia! Isso são os nossos negros,
os nossos mulatos desse país.
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"O jongo é tradição muito antiga, e naquele tempo,
logo que a princesa Isabel libertou os escravos, o preto fundou o jongo,
né. Naquele tempo os brancos freqüentavam, mas os negros não
gostavam muito. Gostavam dos pretos, dos morenos, morenos bem pardos,
bem tostados, né... Hoje é diferente. Hoje tudo dança,
dança preto, dança branco, dança moreno, dança
qualquer um. Mas naquele tempo não era assim não, segundo
a escola que tive do meu pai, que foi da escravidão, né?
Então, tem um ponto de jongo que eu canto pro jongueiro e pergunto
pra ele: o que é o jongo? E o jongueiro não sabe responder
o que é jongo. Agora, pro jongueiro tirar mesmo o ponto, para dizer
tirei o ponto, ele precisa responder pra mim, na cantoria, na hora do
jongo: " jongo pra quem sabe, é jongo, pra quem não sabe,
não é nada ". É isso ..."
Depoimento do Sr. João

Jongo: do tempo dos escravos |
"Eu canto o canto porque eu sei cantar.
Não quero que a saudade venha me matar...
Enquanto a abóbora amadurece, eu como a
cambuquira... "
Trecho cantado do jongo |
No final do século XIX, a crise de desemprego que ocorreu na Europa
trouxe para o Brasil sete milhões de imigrantes. Eles vinham para
trabalhar nas plantações de café, o principal produto
de exportação da época. Acabaram ocupando o lugar
dos mestiços e escravos libertos, como mão-de-obra assalariada.
Os europeus se fixaram principalmente em São Paulo e no sul do
país, onde renovaram a vida local e promoveram o primeiro surto
de industrialização do país.
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Esse país já
feito num certo momento recebe uma invasão branca...
Veja a diferença. Os que foram para a Argentina caíram
em cima do povo argentino, paraguaio e uruguaio que haviam feito
seus países, que eram oitocentos mil, e disso saiu um
povo europeizado. Aqui não, essa quantidade de gringos
caiu em cima de quatorze milhões de brasileiros. Então
foram absorvidos por nós. Encontraram um país
feito, com um século de história, com cidades
importantes. Deram, é claro, uma grande contribuição
e continuam dando, mas muitos deles não conhecem nada
e acham que deram o automóvel. Essa influência
das matrizes índias, negras e européias foi descrita
algumas vezes como uma democracia racial. Aqui não há
nenhuma democracia racial. Aqui é muito duro ser negro,
O preconceito nosso é por natureza diferente do preconceito
americano. Aqui há um conceito curioso de branquização,
o negro quando vai ficando claro, a mestiçagem facilita
isso sobretudo quando vai ficando rico, fica branco. Esse preconceito
de branquização é um conceito bonito, não
é democracia racial. É branquização,
é uma possibilidade até preconceituosa de que
o negro é aceito como alguém que vai deixar de
ser negro, que vai transar com todas as brancas que vão
clarear os filhos deles. É um preconceito, de certa forma,
melhor do que um apartheid, que quer que o negro fique longe,
fique distante para respeitá-lo lá longe, mas
não quer proximidade com ele. Nós queremos é
confluir, misturar. Isso é bom, mas não pode ser
chamado de democracia racial.
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"A
distância social mais espantosa do Brasil é a que separa
e opõe os pobres aos ricos. A ela se soma a discriminação
que pesa sobre índios, mulatos e negros. "
O
Povo Brasileiro
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Nas praias, alguns descansam... |

...enquanto outros trabalham |
Nos anos 90, a separação entre classes ricas e pobres é
quase tão grande quanto as que existem entre povos diferentes.
E o Brasil destaca-se no mundo por sua péssima distribuição
de renda. Quando o indivíduo consegue melhorar de vida, é
possível perceber que seus descendentes em uma ou duas gerações
cresceram em estatura, se refinaram, se educaram. Muitos estrangeiros
que chegaram aqui no começo do século XX encontraram condições
de ascensão social mais rápida do que muitos brasileiros
gerados aqui. Para Darcy Ribeiro, o país pouco mudou desde 1.500.
E dos escravos aos assalariados de hoje, o Brasil se fez como um moinho
de gastar gente.
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É muito duro
para um negro fazer carreira no Brasil. Eles são a parcela
maior da camada mais pobre que tá lá, no fundo
do fundo, e é a camada onde pesa mais o analfabetismo,
a criminalidade, a enfermidade. E é claro que precisam
de uma compensação que nunca tiveram. Eles fizeram
este país, construíram ele inteiro e sempre foram
tratados como se fossem o carvão que você joga
na fornalha e quando você precisa mais compra outro. A
atitude para com o negro e o mulato e com o pobre é muito
bruta. Sobretudo os branquinhos de merda, que tem uma atitude
muito freqüentemente de profundo preconceito e nenhum respeito
para com essa gente que fez o Brasil.
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Os brasileiros se sabem, se sentem e se
comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia. Essa
unidade não significa porém nenhuma uniformidade. O homem
se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferentes. A urbanização
contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças.
Fala-se em todo o país uma mesma língua, só diferenciada
por sotaques regionais. Mais do que uma simples etnia, o Brasil é
um povo nação, assentado num território próprio
para nele viver seu destino.
COM A PALAVRA, O BRASILEIRO
...

José Silva |

José Rafael |

Francisca |

Franscisco |

Mara Anastácia |
José Silva: "Ser brasileiro é ser artista." José
Rafael: "Vamos aí, na batalha." Francisca: "Não
dá nem pra rir, né ?" Francisco: "Brasileiro gosta
de ter fé." Mara Anastácia: "É um pouquinho
de sonho, né ?"
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Mas
foi essa gente nossa, feita da carne de índios, alma de índios,
de negros, de mulatos, que fundou esse país. Esse "paisão"
formidável. Invejável. A maior faixa de terra fértil
do mundo, bombardeada pelo sol, pela energia do sol. É uma
área imensa, preparada para lavouras imensas, produtoras
de tudo, principalmente de energia. A Amazônia devia ser um
país, porque é tão diferente. O nordeste, até
a Bahia... outro país que é diferente. A Paulistânia
e as Minas Gerais juntas são outra gente... O sul, outra
gente... Esse povão que está por aí pronto
pra se assumir como um povo em si e como um povo diferente, como
um gênero humano novo dentro da Terra. É claro que
eu tinha de fazer um livro sobre o Brasil que refletisse de certa
forma isso. E vivi fazendo pesquisa, e vivi muito com negros, brasileiros,
pioneiros de todo o lugar do Brasil. E li tudo que se falou do Brasil.
Então estava preparado pra fazer esse livro. E gosto dele.
Tenho orgulho do fundo do peito de ter dado ao Brasil esse livro.
É o melhor que eu podia dar. Gosto muito disso. |
Que bela história tem esse povo
brasileiro...
Ficha
Técnica:
Realização: TV Cultura - 1995
Roteiro e direção: Regina M. Ferreira
Produção: Cristina Winther, Estela Padovan, Márcia
Régis, Regina Gambini
Reportagem: Márcia Régis
Pesquisa iconográfica: Nercy Ferrari
Imagens: Edgar L., João Bosco Batista Lopes, José Elias
da Silva
Edição de imagens: Antonio Asa
Pós-produção: Dario de Oliveira
Narração:José Augusto Arnelas
Chefe de Redação: Vicente Adorno
Departamento de Documentários: Teresa Otondo

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