A população paulista dos primeiros tempos vivia numa economia
de subsistência. Não podia contar com a riqueza gerada pela
exportação de açúcar. O regime de trabalho,
voltado para o sustento, e não para o comércio, era quase
o mesmo da aldeia tribal. A base da agricultura era indígena, enriquecida
pela contribuição dos europeus, que trouxeram os animais
domésticos. As casas passaram a ser de taipa, cobertas por telhas.
E equipamentos como o monjolo vieram para ficar. Até hoje facilitam
o trabalho de beneficiar o milho. "A importância dele é que
a gente, por exemplo, planta, depois colhe, depois leva para lá
para ceifar farinha pra gente gastar. A gente cria galinha pra gastar...
Dá um pouco pra criação, pro gado, pro porco..."
Depoimento do Sr. Vicente

Na vida simples, subsistência própria |
Era uma sociedade que, por ser mais
pobre, era também mais igualitária. A miscigenação
era livre, porque quase não havia entre eles quem não
fosse mestiço. Até meados do século XVIII essa
gente falava uma língua aprendida com os índios, o
" nheengatu " . Um jeito de falar tupi com boca de português,
inventado pelos padres jesuítas. |
Em suas andanças, os paulistas foram aumentando o tamanho do Brasil.
Na esperança de encontrar minérios, eles buscavam no fundo
das matas a única mercadoria que estava ao seu alcance: os indígenas.
As bandeiras partiam de São Paulo levando mais de duas mil pessoas.
Eram homens e mulheres, famílias inteiras de mestiços que
iam fazendo roça de milho e feijão pelo caminho, fundando
vilarejos, caçando e pescando pra comer. Eles ignoraram as fronteiras
portuguesas para aprisionar os habitantes da terra e depois vendê-los
como escravos aos engenhos do nordeste. E não pouparam sequer os
índios convertidos à fé católica que habitavam
as missões jesuíticas do sul do país e do Paraguai.
O modelo jesuítico procurava assegurar a eles uma existência
própria dentro das Missões, ao contrário dos colonos,
que tratavam o indígena como mão-de-obra escrava.
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Desde
o princípio houve um partido de jesuítas que tinha
uma utopia para os índios. Era fazer dos índios pios
seráficos, religiosos, gente tão boa que era a melhor
gente do mundo. Eles achavam que era a maneira de fazer o Paraíso
na Terra. A religião pegou mesmo foi com as filhas das índias
e das negras, as mestiças, que, não podendo satisfazer-se
com a religião dos índios e dos negros, aceitavam
e gostavam das novenas, das ladainhas, das missas, das procissões...
E assim surgiu esse catolicismo santeiro e festeiro, que foi um
belo catolicismo do Brasil até pouco tempo. |
"Minas foi o nó
que atou o Brasil e fez dele uma coisa só."
Trecho do livro
O Povo Brasileiro
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No final do século XVII, a descoberta de ouro pelos paulistas nas
terras do interior mudou os rumos do Brasil Colônia. Em menos de
dez anos, chegaram à região das Minas mais de 30 mil pessoas,
vindas de todo o país. Eram paulistas, baianos, senhores de engenho
falidos e, principalmente, escravos. No começo da exploração
muitos morriam de fome com o ouro nas mãos, já que não
havia o que comer. Os tropeiros garantiam a sobrevivência vendendo
comida e panos de algodão. Atraídos pelo ouro, muitos deles
acabaram se fixando no cruzamento das rotas de comércio e estabeleceram
as primeiras povoações. Desse modo abriram caminho para
a ocupação do interior do país.
"No princípio
eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões
importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos.
Mas logo, logo, veja só: eram multidões de mestiços,
crioulos daqui mesmo."
Trecho do livro
O Povo Brasileiro
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Setenta anos depois, a capitania de Minas Gerais já era a área
mais populosa da América, com trezentos mil habitantes. Eram pessoas
que vinham fazer fortuna, como os garimpeiros que ainda hoje trabalham
na região das Minas.

Genesco: nos garimpos de MG |
"Aqui se trabalha de segunda a sábado,
das oito da manhã às 3 tarde, e sábado até
11 horas. Aqui mesmo em Antonio Pereira, Ouro Preto, garimpo de
topázio imperial. Tudo o que tenho em casa é tirado
do garimpo. Não tem um alfinete, em casa, que seja resultado
de trabalho em firma, porque firma não dá nada, ganhar
cem contos não dá. Garimpo custa a dar dinheiro, mas
quando dá, é muito. A gente ganha bolada de dólar.
Quando eu acho uma pedra grande eu falo assim: "Eu tirei a vaca
do atoleiro, tirei uma pedra boa e agora vou descansar, vou comprar
o que eu desejar na vida..." . Todo mundo fica alegre quando tira
um topázio bom. Bebe cachaça... atropela carro no
asfalto... é isso aí, o garimpo é isso aí."
Depoimento de Genesco
Aparecido de Souza, garimpeiro
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A descoberta do ouro mudou totalmente a vida da colônia. A mineração
desbancou a indústria açucareira, que era então a
principal atividade econômica. A sociedade estava estruturada nos
moldes da fazenda – da casa-grande e da senzala - vivendo ao redor do
senhor de engenho. O país prosperava graças ao trabalho
escravo de três milhões de negros. O açúcar,
no entanto, começava a sofrer concorrência das Antilhas.
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A
grande contribuição da cultura portuguesa aqui foi
fazer o engenho de açúcar... movido por mão-de-obra
escrava. Por isso, começaram a trazer milhões de escravos
da África. O negócio maior do mercado mundial era
a venda de açúcar para adoçar a boca do europeu
e depois a remessa de ouro. Mas a despesa maior era comprar escravos.
Os europeus sacanas iam à África e faziam grandes
expedições de caça de negros que viviam ali
uma vida como a dos índios aqui, com sua cultura, com sua
língua, com seu modo... Metade morria na travessia, na brutalidade
da chegada, de tristeza, mas milhões deles incorporaram-se
ao Brasil. |
O CUSTO DO TRÁFICO DE ESCRAVOS NOS 300 ANOS
DE ESCRAVIDÃO FOI DE 160 MILHÕES DE LIBRAS-OURO. CERCA
DE 50% DO LUCRO OBTIDO COM A VENDA DO OURO E DO AÇÚCAR.
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E
esses negros não podiam falar um com o outro, veja esse desafio
como é tremendo. Eles vinham de povos diferentes. Então,
o único modo de um negro falar com o outro era aprender a
língua do capataz, que nunca quis ensinar português.
Milagrosamente, genialmente esses negros aprenderam a falar português.
Quem difundiu o português foi o negro, que se concentrou na
área da costa de produção do açúcar
e na área do ouro... Mas preste atenção: com
os negros escravos vinham as molecas de 12 anos, bonitinhas. Uma
moleca daquelas custava o preço de dois ou três escravos
de trabalho. E os donos de escravos queriam muito comprar, e os
capatazes também. Comprar uma moleca pra sacanagem. Mas essas
molecas pariam filhos, e quem era o filho? Era como o filho da índia.
Ele não era africano, visivelmente. Ele não era índio.
Quem era ele ? Ele também era um "zé ninguém"
procurando saber o que era. Ele só encontraria uma identidade
no dia em que se definisse o que é o brasileiro. |

Imagem de S. Jorge em Ouro Preto:
obra de Aleijadinho
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Nestas terras, ricas em ouro e diamante,
muitos escravos conseguiram comprar a liberdade e enriquecer. Assim
surgiu uma classe intermediária formada de mulatos e negros
libertos, que conseguiram melhorar de vida e se dedicar às
atividades de ourives, carpinteiros, ferreiros e artistas. Ouro
Preto viu florescer a mais alta expressão da civilização
brasileira. Na música, na poesia e na arquitetura o mineiro
deixou sua marca. Entre eles um brasileiro, mulato de grande talento,
que traduziu na pedra tosca a sofisticação do barroco
europeu: Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. |
| A riqueza com que as igrejas foram
construídas no período do ouro deixa transparecer
a importância da religião católica na vida da
colônia. Todos iam à missa: brancos, negros libertos,
mulatos e escravos. Mas cada um freqüentava sua própria
igreja, decorada a seu modo. Nos detalhes da Igreja de Nossa Senhora
do Rosário dos Pretos, o catolicismo é temperado com
os símbolos religiosos africanos. |

No teto da igreja, sincretismo religioso |
A mineração de ouro e diamante alterou profundamente o aspecto
rural e desarticulado do país. Até então, os brasileiros
viviam isolados uns dos outros devido às grandes distâncias.
Mas a rede de intercâmbio comercial que começava a se formar
entre as capitanias daria uma bela base econômica à unidade
nacional. O sertão nordestino, que vivia da criação
de gado, fornecia a carne e o couro. A sede do governo foi transferida
de Salvador para o Rio de Janeiro, devido à proximidade das Minas.
E o Rio Grande do Sul acabou sendo incorporado ao país através
do comércio de mulas.
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Esse
país tomou conta de si pela primeira vez num movimento fantástico
– a Inconfidência Mineira... |

Estátua de Tiradentes:
idealismo |
O movimento idealizado
por uma elite intelectual previa uma nova organização
da sociedade. Entre os planos dos inconfidentes estavam a criação
de universidades, a instalação de indústrias
e a libertação dos escravos. A inspiração
maior vinha dos ideais da Revolução Francesa e de
um novo país da América do Norte, os Estados Unidos.
Uma denúncia acabou levando à forca um dos líderes
do movimento: o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
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Tiradentes
foi esse herói nacional fantástico, um homem sábio,
engenheiro que fez o serviço de águas do Rio de Janeiro,
que fez o planejamento dos portos do Rio... e que conspirou na Europa,
em Portugal e conspirou com os norte-americanos também. Era
um intelectual que lia, conhecia a constituição americana
e queria fazer uma república. Era respeitado pelos magistrados,
pelos coronéis militares, pelos poetas, por aquele grupo
atípico de Minas que quis criar uma República Brasileira,
criar um Brasil e criar brasileiros, dando dignidade. Mas os portuguesas
abafaram isto tão bem que continuou soterrada a idéia
de liberdade e de autonomia do Brasil... |
Trinta anos depois da rebelião dos inconfidentes, o Brasil se tornava
império autônomo. Mas levaria quase cem anos para extinguir
o trabalho escravo em seu território. Durante trezentos anos o
país usou cerca de doze milhões de negros como principal
força de trabalho em seu processo de formação. Trazidos
do Sudão, da Costa do Marfim, da Nigéria, de Angola e de
Moçambique, essa gente marcaria com sua cor e com sua força
a fisionomia e a cultura brasileiras. E, ao final do período colonial,
era uma das maiores populações do mundo moderno.
"Todos nós,
brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios
supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos
seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre
aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais
terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação
contra esta herança maldita nos dará forças
para, amanhã, conter os possessos e criar aqui, neste país,
uma sociedade solidária ".
O Povo Brasileiro
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