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A chegada
Logo Entre Dois Mundos






































Na terra acostumada ao colonizador português, a chegada de novas etnias, com seus diferentes hábitos e costumes, provocou profundas alterações na sociedade brasileira.

Imagem Mathilde Hoster"Nasci em Duisburg, na Alemanha. Eu tinha doze anos, cinco meses e três dias quando vim para o Brasil. Meu pai trabalhava demais, ele era diretor de banco e... tinha um sonho em mente. Largar a civilização e entrar, depois de uma longa viagem de navio, num país totalmente diferente, estranho, mas muito promissor". Depoimento de Mathilde Hoster, a Nanuk.

 


O "Galera Maria", que aportava em Santos, trouxe os primeiros imigrantes para São Paulo. Eram alemães, na maioria camponeses. Num primeiro momento, alguns encontraram ocupação nos trapiches, onde foram conhecendo as particularidades da exportação de café.
Depois de subir a Serra do Mar a pé, seguiram para a vila de Santo Amaro e foram distribuídos em sítios doados pelo governo imperial brasileiro. Na bagagem traziam sementes, ferramentas e técnicas agrícolas que pouco ajudavam no desconhecido solo tropical.

"Os alemães vieram muito cedo para o Brasil, vieram muito antes da grande imigração em massa. Depois eles se incorporaram à imigração em massa. Um pouco antes da independência, os alemães começaram a vir... fazendo algumas experiências de cultivo, vivendo uma vida comunitária, seguindo em alguns casos uma tradição religiosa própria".

Depoimento de Bóris Fausto.

Permanecer significava criar condições de sobrevivência e adaptação, através da construção de casas, escolas, templos e cemitérios. Os alemães protestantes, que não podiam enterrar seus mortos junto aos católicos brasileiros, fundaram a Sociedade de Cemitérios, num local conservado e conhecido como Colônia Velha, até hoje um marco da imigração alemã em São Paulo. Os alemães de Santo Amaro são lembrados como os "caboclos loiros".

Imagem"A mulher teve um papel fundamental na manutenção de um quadro doméstico, de uma vida familiar, não só fornecendo alimento, mas inaugurando uma certa ordem doméstica, uma certa idéia, a realização de um lar imigrante que era muito importante para as pessoas que tinham de se inserir numa sociedade desconhecida". Depoimento de Bóris Fausto

O estado de São Paulo contava 840 mil habitantes. As cidades apareciam ao longo das ferrovias, impulsionadas pela realidade do café. Bancos estrangeiros surgiam. O comércio se intensificava. E a cidade de São Paulo entrava no roteiro das companhias teatrais estrangeiras. Despertava de um sono colonial e acolhia novos imigrantes. Agora, italianos.Um acordo entre os governos do Brasil e da Itália trouxe milhares de italianos para a lavoura de café. Eles desembarcavam em Santos com suas arcas e baús, subiam a serra na Maria Fumaça e ficavam alojados por alguns dias na Hospedaria dos Imigrantes. E então partiam para as fazendas.



Imagem Vittorina Salvi Szili"Eu deixei na Itália toda a amizade da escola primária, as amigas a quem fazia confidências, os primeiros amores, tudo. Deixei na Itália parentes, deixei o sonho de poder continuar o estudo artístico. Quando você chega num país novo, num mundo novo, porque o Brasil fazia parte do mundo novo, é tudo muito diferente".
Depoimento de Vittorina Salvi Szili, a Victoria.

 

Logo na chegada, o ambiente era estranho: as plantas eram exuberantes e exóticas; as espécies animais, diferentes; no céu, constelações desconhecidas; ninguém a quem fazer confidências, lugar algum que os fizesse recordar o passado. Um permanente tatear, procurar. Começar do zero.

Imagem Hospedaria dos ImigrantesAlguns fazendeiros sentiam a necessidade de um local para abrigar e organizar a distribuição da mão-de-obra imigrante pelas fazendas. Em 1886, Antonio de Queiroz Telles, o Visconde de Parnaíba, fundou no bairro do Brás, em São Paulo, a Hospedaria dos Imigrantes. Os imigrantes podiam permanecer ali, sem despesas, até oito dias à espera de um contrato de trabalho. Ao longo de várias décadas, homens, mulheres e crianças de mundos estranhos passaram por ela.

Rapidamente os produtores rurais perceberam o valor da mão-de-obra imigrante. Ela era mais produtiva, gerava bons lucros e os produtores não precisavam gastar mais com a compra de escravos. A São Paulo do começo do século XX recebia boa parte desses lucros. Muitos fazendeiros faziam da cidade sua principal morada. Construíam belos palacetes que até hoje enfeitam a metrópole, enquanto investiam no comércio e na indústria. Os italianos formavam São Paulo. A presença deles tocava fundo na maneira paulista de falar, na culinária, arquitetura e música. Revolucionaram hábitos e costumes.



"Começamos a olhar em volta para ver o que podia fazer e começávamos a trabalhar. A gente tinha de trabalhar, porque não se vive de ar, e como sempre com este grande nó na garganta da saudade. A saudade é uma coisa enorme".
Depoimento de Victoria.

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