
O Colecionador de
Estrelas |
MAS O QUE
É UMA CONSTELAÇÃO?
Depois de achar o Cruzeiro no céu, é fácil se localizar aqui na Terra. Se estendermos uma linha imaginária a partir do madeiro maior do cruzeiro, e repetirmos quatro vezes e meia a sua medida angular, chegamos a um ponto no céu chamado PÓLO CELESTE SUL. Partindo desse ponto, uma nova linha imaginária perpendicular ao horizonte nos encaminhará ao ponto cardeal sul. E, ainda usando o CRUZEIRO como ponto de partida, agora usando o braço menor da cruz como referência . . . caminhando para o leste, encontramos o semicírculo de estrelas que formam a cauda do ESCORPIÃO. A partir delas podemos ver cerca de cinco estrelas em semicírculo e outras cinco originando uma letra "S" imperfeita no céu. Na extremidade oposta, a cabeça do escorpião é representada por três estrelas. Estas observações a olho nu devem sempre ser acompanhadas das referências das CARTAS CELESTES, que são como mapas para uma viagem ao passado. Primeiro pelos símbolos culturais e pelas hipóteses cosmológicas que elas retratam. Depois pelas longas viagens que a luz das estrelas realiza para chegar até nós. Vamos voltar ao Cruzeiro do Sul e para as estrelas Alfa e Beta do CENTAURO, as duas estrelas brilhantes a leste do cruzeiro. ALFA de CENTAURO está a aproximadamente quatro anos-luz da Terra. Já BETA do CENTAURO está a 490 anos-luz de nós. Só pra confirmar que o conceito de constelação não tem nada ver com proximidade física das estrelas, basta observar a viagem da luz que vem de GAMA do CRUZEIRO, que leva 220 anos pra ser visível por aqui, e a luz que vem de DELTA do CRUZEIRO, que leva 570 anos para atingir a retina de um observador aqui na Terra. Ou seja . . . esses registros de corpos celestes falam de eventos ocorridos em momentos distantes no tempo e no espaço, e que os gregos, com sua proverbial imaginação mitológica, povoaram de deuses e semideuses. Por exemplo: o ESCORPIÃO é uma das constelações mais parecidas com o animal que representa. Olhando os desenhos mitológicos das constelações, fica fácil viajar nas lendas.
No céu do hemisfério sul, a VIA LÁCTEA é muito mais brilhante que no hemisfério norte. Talvez seja por isso que os índios brasileiros, os incas, as culturas ancestrais da América, usavam como referência não só as estrelas mais brilhantes, mas também as regiões escuras do céu. Próximo ao CRUZEIRO DO SUL há uma dessas regiões escuras, que ficou conhecida por aqui como SACO DE CARVÃO, depois "cristianizada" para TÚMULO DE JESUS, que seria levado da cruz para este "santo sepulcro" celeste.
Para a UNIÃO ASTRONÔMICA INTERNACIONAL os olhos do jaguar são as patas do CENTAURO, ALFA e BETA da constelação. Todas essas viagens da imaginação e registros científicos estão marcados nos círculos das CARTAS CELESTES, limitadas pelo horizonte visual da localização escolhida para a confecção da carta. Os pontos cardeais norte, sul, leste e oeste também estão presentes. O céu nas CARTAS CELESTES se encontra como que rebatido. Para observá-lo corretamente, nós temos de fazer coincidir o "sul"com o ponto cardeal "sul" e aí, para olhar o céu, a carta tem de ficar invertida. Daria pra pensar num número infinito de cartas celestes, porque a Terra vai girando em sentido contrário e as estrelas mudam de posição a cada instante. Mas, as mudanças mais significativas são em relação às estações do ano. Além disso, as cartas ainda trazem normalmente informações sobre magnitudes e código visual para os diferentes corpos celestes. As cartas celestes são representações planas do GLOBO CELESTE. Os astrônomos do século XVI projetaram uma peça com a intenção de dar uma visão tridimensional do globo celeste, que se chama ESFERA ARMILAR.
Era só imaginar as constelações dispostas flutuando no espaço, como se as distâncias interestelares fossem desprezíveis, e fazer de conta que o Sol não estava nem aí. Mas . . . ELE ESTÁ AÍ ! ! E a sua luz é quase tudo pra nós. . . Sem a luz do Sol não haveria vida na Terra, nem colecionadores de estrelas. Portanto, qualquer colecionador de estrelas que se preze tem de conhecer um pouco sobre o Sol. Boa parte das observações do Sol se faz com a projeção de sua imagem captada por lunetas protegidas por filtros, que atenuam as suas radiações nocivas. E a primeira coisa que as pessoas percebem são as manchas solares. As manchas solares aparecem por contraste - elas são mais frias do que o restante da superfície solar.
O Sol, além de uma poderosa fonte de energia, é também boa fonte de informações. A partir do conhecimento de suas características físicas foi possível começar a levantar hipóteses sobre a constituição de estrelas e demais corpos celestes. Se nós somarmos as massas dos planetas, seus satélites, os asteróides e os cometas, enfim, quase todos os corpos do sistema solar, vamos ficar com 0,2%, contra 99,8% da massa que estará concentrada no Sol. Apesar de tudo isso, ele é apenas mais uma estrela no nosso céu. Vamos voltar a usar a imaginação...e "retirar o Sol do céu" de um dado instante de um dia de inverno aqui no hemisfério Sul da Terra. O que veríamos seria o céu típico de um dado instante de uma noite de verão. É fácil de entender: imagine que o Sol está parado lá no centro do sistema solar e que a Terra vai girando em torno dele. A cada ano a Terra completa uma volta. Nós estamos aqui olhando as estrelas típicas do inverno. Do outro lado, o Sol impede que a gente veja as estrelas do verão. Mas, quando 6 meses se passam, a situação se inverte: o Sol está na frente das estrelas de inverno, e nós estamos vendo as estrelas de verão. Essa situação vai acontecendo sucessivamente ao longo de todos os anos. Uma boa maneira de entender esses movimentos do céu é através da fotografia astronômica. Uma câmera fotográfica simples, que faça chapas com exposição prolongada, vai registrar as linhas circulares dos movimentos que as estrelas fazem em torno do PÓLO CELESTE SUL. Na verdade, quem se movimenta é a Terra, as estrelas estão praticamente paradas. A Terra é que gira e cria a ilusão do movimento. Talvez a melhor opção didática para a apreensão desses movimentos do céu, do Sol e das estrelas da Terra com o globo celeste seja o PLANETÁRIO. Todo colecionador de estrelas gostaria de ter um projetor planetário em seu escritório. Ele simula o aspecto do céu de qualquer lugar da Terra, no passado, no presente ou no futuro. As imagens aceleradas do movimento dos planetas e seus satélites, além de encantadoras, ajudam a clarear muitas dúvidas de estudantes e curiosos de todas as idades. As atividades de campo em ASTRONOMIA ligadas à educação são caminhos de aventura e religação com a natureza e descoberta. Olhar para o céu faz a gente repensar as coisas. Exercita uma visão mais aberta do universo e do mundo competitivo em que vivemos. Os observatórios dedicados ao ensino de astronomia oferecem elementos técnicos e condições de aproximação de um conhecimento milenar que se revitaliza com o progresso da tecnologia. Os observatórios a olho nu dos Incas, na América Latina, o Stone Hedge da Europa e as fendas nas pirâmides egípcias são alguns dos precursores dos planetários de hoje.
O MUSEU DE ASTRONOMIA do Rio de Janeiro revive um pouco da história da pesquisa brasileira nessa área. O trabalho educativo do OBSERVATÓRIO NACIONAL complementa essa viagem com equipamentos de observação abertos ao público estudantil. Pra quem já avançou o suficiente na astronomia básica e decidiu que esse é o seu caminho profissional, a FACULDADE DE ASTRONOMIA da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Morro do Valongo, é uma das opções para a formação acadêmica, mas o caminho mais difundido no Brasil para a formação acadêmica em ASTRONOMIA é o da PÓS-GRADUAÇÃO. A partir de um curso de física ou matemática, a pós-graduação oferece condições de optar por um dos muitos campos de pesquisa da ASTRONOMIA: a RÁDIO ASTRONOMIA, a ASTRONOMIA OBSERVACIONAL, ASTROFÍSICA, COSMOLOGIA e muitas outras especializações que são resultado de muito trabalho e dedicação em busca do conhecimento. Pode ser que a partir de uma visita a um planetário ou observatório, ou ainda da participação de um grupo de observação a olho nu, surja algum ASTROFÍSICO DO FUTURO, ou alguma RADIOASTRÔNOMA. Isso seria ótimo! Mas, a característica mais importante desse tipo de atividade é o desenvolvimento da capacidade de observação da natureza. A possibilidade do reconhecimento de novos horizontes, novas relações entre o homem e o universo, o homem e seu próprio mundo. ENSINAR
E APRENDER
1 - O professor
pode e deve estimular a observação do céu e as referências
que ela cria para a nossa localização sobre a Terra. Esta
atividade é um ponto de partida para as "grandes viagens", e preferencialmente
destinada aos alunos de 5a série. Para começar, o professor
precisa das CARTAS CELESTES, que podem ser obtidas em alguns livros (ver
bibliografia) ou revistas especializadas (importadas), ou ainda nas Sociedades
Astronômicas, às quais é possível se filiar
e conseguir orientação para professores e alunos no manuseio
das cartas e outros instrumentos.
Além das informações de caráter científico, o reconhecimento das estrelas e constelações cumpre importante papel no resgate cultural das lendas brasileiras e mitologias envolvidas, bem como na valorização das relações entre as diferentes formas de observação. 2 - Uma outra atividade muito instigante é o estudo das sobras provocadas por "gnomons" (hastes com tamanhos proporcionais às estaturas dos alunos, fincadas no chão), e a conseqüente avaliação dos movimentos do Sol durante um dia, uma semana... um ano. Vale a lembrança de que foi com método de triangulação a partir de sombras que o astrônomo grego Hiparco de Nicéia calculou, com bastante precisão para a época, a distância da Terra à Lua. |