
![]() Clique nas imagens para visualizá-las em tela cheia. Anita Malfatti, Max Bill, Modigliani, Picasso, Flávio de Carvalho... Houve um tempo na arte em que o futuro era o moderno. A história que se contará neste espaço retrata o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, onde está registrado esse tempo e seu desdobramento em rupturas e vanguardas. São cerca de cinco mil obras de artistas nacionais e estrangeiros, procedentes de várias coleções. O núcleo principal pertenceu ao antigo Museu de Arte Moderna, o MAM, criado em 1948 sob inspiração e empenho de um casal de mecenas - o industrial Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo, e sua mulher, Yolanda Penteado. Na São Paulo ainda provinciana daqueles dias, os dois pretendiam "levantar o diabo nell´acqua morta", segundo a fala peculiar de Ciccillo. O século XX revelou para o olhar futurista um mundo tecnológico, um mundo mergulhado na vertigem da velocidade, em que tudo se podia deslocar. Um certo espírito cosmopolita impregnava a vida e promovia o encontro das pessoas. Eram tempos modernos, aqueles. Na travessia do século, também os olhares cubistas, dadaístas e de outros movimentos artísticos buscavam caminhos novos. A arte passou a retratar coisas que pareciam ter-se cansado de ser elas mesmas, em sua cópia fiel. A arte deixou de ser um duplo do mundo. A produção das décadas seguintes aprofundou a rebeldia da modernidade. Telas não se sujeitavam mais à prisão da superfície plana e lançavam relevos no espaço. Ou se abriam para que nelas se insinuasse o ar. Esculturas recusavam o repouso de pedestais para conversar com a aragem, com o vento.
|
|
Nos últimos tempos o MAC/USP perdeu um pouco o fôlego que o conduzia para o futuro. A atualização do acervo depende do orçamento da universidade e acaba se concretizando apenas por meio de doações. Mas colecionar obras nunca foi a única ambição do museu. Quando ele ainda era chamado de Museu de Arte Moderna, um texto curiosamente intitulado Plano Moral definia os objetivos em quatro itens: a formação de um acervo contemplando todas as correntes desde o ano de 1900; a organização de mostras temporárias envolvendo também a arquitetura, o folclore e as artes aplicadas; a organização de cursos, conferências e projeção de filmes; e, finalmente, a publicação de trabalhos e catálogos.
Walter Zanini, primeiro diretor do MAC/USP, assumiu pouco antes do golpe militar de 64. Atravessou os tempos difíceis da repressão política, fazendo do museu um fórum do pensar e fazer artísticos. Alguns trabalhos refletiam a presença militar no cotidiano e artistas muitas vezes eram ameaçados. O nome do prof. Zanini surge sempre que se fala do lugar de destaque que o MAC/USP ocupou nas décadas de 60 e 70. O museu se abria para o futuro. Avesso a entrevistas e gravações, ele dá seu testemunho em conversas informais. "Nos anos 60", diz Zanini, "houve uma mudança de concepção de museu, no mundo todo". Não se queria mais museus como templos, lugares apenas de contemplação.
Era um tempo de questionamento. Numa simulação de reforma agrária no território das artes, o piso do museu foi loteado entre vários artistas, para que nele pintassem suas obras. Alguns artistas chegaram a registrar seu pedaço de chão em cartório. O prof. Zanini relembra que os críticos de arte não subiam a rampa do museu e poucas vezes entenderam as propostas.
|
|
O museu também deve a Yolanda Penteado a doação de obras do acervo. Como o "Cavalo" de Marino Marini, adquirido por Ciccillo momentos antes de receber o prêmio de escultura na Bienal de Veneza de 1948... E o "Auto-Retrato" - a última obra - de Modigliani, presente de aniversário que ela recebeu de Ciccillo.
Neste ponto é preciso recuar no tempo e dar ao mecenato seu verdadeiro tamanho. A viagem rumo à vanguarda já havia sido iniciada em 1917, com o modernismo de Anita Malfatti e uma série de movimentos e manifestações. A Semana de Arte Moderna, em 1922, foi um marco. Avançando para a segunda metade dos anos 40, chegamos a uma São Paulo que não sabia parar e se enriquecia com a industrialização. O crítico de arte Sérgio Milliet, diretor da Biblioteca Municipal, coordenava um grupo para fundar um museu de artes modernas. São Paulo era o ambiente ideal para o surgimento de um mecenas. E Ciccillo e Yolanda partiram em busca de um acervo.
Enquanto as obras italianas espelham o gosto mais conservador de Ciccillo, as obras compradas por Alberto Magnelli, em Paris, refletem o gosto refinado de Yolanda, que tinha uma formação francesa. Magnelli, um italiano radicado na França e com parentes no Brasil, selecionou principalmente trabalhos inspirados no cubismo. As telas retratam o mundo na perspectiva de alguém que se desloca no espaço. A cor se recusa ao realismo imediato e se ilumina. Além das obras selecionadas por Magnelli e Sarfatti, a face do novo museu foi moldada por seus dois primeiros diretores: o crítico belga Leon Degand e seu sucessor, o crítico brasileiro Lourival Gomes Machado. A permanência de Degand foi fugaz - apenas 11 meses. Nesse período defendeu que, para dar um impulso enérgico à arte, era necessário formar um mercado no país. Lourival Gomes Machado se preocuparia em formar o núcleo inicial da coleção brasileira, mas coube a Degand buscar do outro lado do Atlântico os abstratos e figurativos que inauguraram o espaço do museu e da polêmica.
|
|
São Paulo se industrializava e sonhava ser cosmopolita. Ciccillo e Yolanda Penteado decidiram tirar a arte da reclusão dos salões burgueses. Deram a ela o museu e patrocinaram exposições internacionais a cada dois anos. Promoveram a democratização da arte, cuja última etapa seria a doação do acervo à Universidade de São Paulo.
|