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ANITA MALFATTI

"A Boba" - 1915/1916
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FLÁVIO DE CARVALHO

"Retrato de José Lins do Rêgo" - 1948
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Anita Malfatti, Max Bill, Modigliani, Picasso, Flávio de Carvalho... Houve um tempo na arte em que o futuro era o moderno. A história que se contará neste espaço retrata o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, onde está registrado esse tempo e seu desdobramento em rupturas e vanguardas.

São cerca de cinco mil obras de artistas nacionais e estrangeiros, procedentes de várias coleções. O núcleo principal pertenceu ao antigo Museu de Arte Moderna, o MAM, criado em 1948 sob inspiração e empenho de um casal de mecenas - o industrial Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo, e sua mulher, Yolanda Penteado. Na São Paulo ainda provinciana daqueles dias, os dois pretendiam "levantar o diabo nell´acqua morta", segundo a fala peculiar de Ciccillo.

O século XX revelou para o olhar futurista um mundo tecnológico, um mundo mergulhado na vertigem da velocidade, em que tudo se podia deslocar. Um certo espírito cosmopolita impregnava a vida e promovia o encontro das pessoas.

Eram tempos modernos, aqueles. Na travessia do século, também os olhares cubistas, dadaístas e de outros movimentos artísticos buscavam caminhos novos. A arte passou a retratar coisas que pareciam ter-se cansado de ser elas mesmas, em sua cópia fiel. A arte deixou de ser um duplo do mundo.

A produção das décadas seguintes aprofundou a rebeldia da modernidade. Telas não se sujeitavam mais à prisão da superfície plana e lançavam relevos no espaço. Ou se abriam para que nelas se insinuasse o ar. Esculturas recusavam o repouso de pedestais para conversar com a aragem, com o vento.

Depoimento de Agnaldo Farias,
historiador e
crítico de arte
.
. "Há, portanto, uma ruptura sucessiva, sistemática, persistente, sempre a busca do novo, sempre o reconhecimento da pintura ou escultura como pontos de linguagem, como campos de invenção do homem. Coisas que, de fato, estão libertas, livres, são verdadeiros laboratórios de percepção... Há sempre uma preocupação que também é mater do movimento moderno: a idéia da vanguarda, a idéia da novidade."

Depoimento de Júlio Plaza, artista plástico e historiador da arte. . "A presença da máquina, do imaginário maquínico nessa contemporaneidade me parece uma determinante. O videotape, o cinema incorporado, os multimeios incorporados no computador, a questão do intertexto, da multimídia..."
O Museu de Arte Contemporânea da USP foi criado em fevereiro de 1963, quinze anos depois do Museu de Arte Moderna que lhe deu origem. A herança de obras-primas fez com que ganhasse destaque na América Latina e espaço nas enciclopédias de arte. Na coleção de obras nacionais, abrigava o mais puro modernismo verde-amarelo, a memória do descobrimento do Brasil nas artes.

Nos últimos tempos o MAC/USP perdeu um pouco o fôlego que o conduzia para o futuro. A atualização do acervo depende do orçamento da universidade e acaba se concretizando apenas por meio de doações. Mas colecionar obras nunca foi a única ambição do museu. Quando ele ainda era chamado de Museu de Arte Moderna, um texto curiosamente intitulado Plano Moral definia os objetivos em quatro itens: a formação de um acervo contemplando todas as correntes desde o ano de 1900; a organização de mostras temporárias envolvendo também a arquitetura, o folclore e as artes aplicadas; a organização de cursos, conferências e projeção de filmes; e, finalmente, a publicação de trabalhos e catálogos.

Depoimento de Nélson Aguilar, historiador da arte. . "Nesse momento senti o MAC cheio de vida, com artistas fazendo workshops o tempo todo, com o diretor do museu organizando exposições antológicas sobre os grandes nomes da arte nacional, com palestras acontecendo todo o tempo, sobre esse entusiasmo, sobre o que é arte... Lembro-me que o prof. Zanini fez várias experiências com arte postal. Na época significou uma abertura..."

Walter Zanini, primeiro diretor do MAC/USP, assumiu pouco antes do golpe militar de 64. Atravessou os tempos difíceis da repressão política, fazendo do museu um fórum do pensar e fazer artísticos. Alguns trabalhos refletiam a presença militar no cotidiano e artistas muitas vezes eram ameaçados.

O nome do prof. Zanini surge sempre que se fala do lugar de destaque que o MAC/USP ocupou nas décadas de 60 e 70. O museu se abria para o futuro. Avesso a entrevistas e gravações, ele dá seu testemunho em conversas informais. "Nos anos 60", diz Zanini, "houve uma mudança de concepção de museu, no mundo todo". Não se queria mais museus como templos, lugares apenas de contemplação.

. "Naquela época, nós fizemos várias exposições de cunho interdisciplinar, multimidial,. Por exemplo a JAC, Jovem Arte Contemporânea, que tinha uma idéia de arte que explode com a idéia de arte do século XIX".
Depoimento de Júlio Plaza.

Era um tempo de questionamento. Numa simulação de reforma agrária no território das artes, o piso do museu foi loteado entre vários artistas, para que nele pintassem suas obras. Alguns artistas chegaram a registrar seu pedaço de chão em cartório. O prof. Zanini relembra que os críticos de arte não subiam a rampa do museu e poucas vezes entenderam as propostas.

Depoimento de Ciccillo Matarazzo Sobrinho, fundador do MAM-SP e do MAC/USP - SP. . "Devo confessar que, quando comecei, era o acadêmico mais acadêmico de todos. Gostava de pintura clássica, de tudo o que se parecesse o mais possível comigo. Depois comecei a ver a evolução da arte."

Depoimento de Giannandrea Matarazzo,
sobrinho de Ciccillo Matarazzo
. "O Ciccillo, pelo que eu conheci, nunca deixou de ser um acadêmico. Mas como ele era um homem muito avançado em tudo, achava que a arte devia se modernizar. A personalidade dele era muito forte e as idéias dele não eram muito facilmente mutáveis".


O ímpeto de modernização levou Ciccillo Matarazzo a ser também um dos fundadores do Teatro Brasileiro de Comédia e dos estúdios da Vera Cruz, além das bienais do Museu de Arte Moderna. Sensível aos sonhos de artistas e intelectuais, por outro lado insistia em fazer tudo a seu modo.

Depoimento de Aracy Amaral, ex-diretora do MAC/USP . "... O Ciccillo tinha atrás de si, na época da fundação do museu, uma figura extraordinária: sua mulher, Yolanda Penteado, dona de um grande ´savoir faire´, capaz de contatos em âmbito nacional e internacional. Tanto que a primeira e a segunda bienais devem muito a ela".

O museu também deve a Yolanda Penteado a doação de obras do acervo. Como o "Cavalo" de Marino Marini, adquirido por Ciccillo momentos antes de receber o prêmio de escultura na Bienal de Veneza de 1948... E o "Auto-Retrato" - a última obra - de Modigliani, presente de aniversário que ela recebeu de Ciccillo.

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MARINO MARINI

"Cavalo" - 1951
Bronze
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AMEDEO MODIGLIANI

"Auto-Retrato" - 1919 (Detalhe)
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Neste ponto é preciso recuar no tempo e dar ao mecenato seu verdadeiro tamanho. A viagem rumo à vanguarda já havia sido iniciada em 1917, com o modernismo de Anita Malfatti e uma série de movimentos e manifestações. A Semana de Arte Moderna, em 1922, foi um marco. Avançando para a segunda metade dos anos 40, chegamos a uma São Paulo que não sabia parar e se enriquecia com a industrialização. O crítico de arte Sérgio Milliet, diretor da Biblioteca Municipal, coordenava um grupo para fundar um museu de artes modernas. São Paulo era o ambiente ideal para o surgimento de um mecenas. E Ciccillo e Yolanda partiram em busca de um acervo.

Depoimento de Tadeu Chiarelli, historiador da arte . "... O núcleo inicial é baseado nas compras feitas por Magnelli na França e na orientação de Margherita Sarfatti. Foi essa senhora que teria orientado Matarazzo e sua equipe de compradores na aquisição das obras do segmento italiano chamado de ´noveccento´, pautado por uma idéia de retorno a uma tradição anterior às vanguardas. A coleção do MAC tem algumas obras importantes do futurismo italiano, mas os principais artistas do ´noveccento´ estão na coleção."

Enquanto as obras italianas espelham o gosto mais conservador de Ciccillo, as obras compradas por Alberto Magnelli, em Paris, refletem o gosto refinado de Yolanda, que tinha uma formação francesa. Magnelli, um italiano radicado na França e com parentes no Brasil, selecionou principalmente trabalhos inspirados no cubismo. As telas retratam o mundo na perspectiva de alguém que se desloca no espaço. A cor se recusa ao realismo imediato e se ilumina.

Além das obras selecionadas por Magnelli e Sarfatti, a face do novo museu foi moldada por seus dois primeiros diretores: o crítico belga Leon Degand e seu sucessor, o crítico brasileiro Lourival Gomes Machado. A permanência de Degand foi fugaz - apenas 11 meses. Nesse período defendeu que, para dar um impulso enérgico à arte, era necessário formar um mercado no país. Lourival Gomes Machado se preocuparia em formar o núcleo inicial da coleção brasileira, mas coube a Degand buscar do outro lado do Atlântico os abstratos e figurativos que inauguraram o espaço do museu e da polêmica.

. "Então foi possível para Ciccillo adquirir obras de artistas extremamente interessantes, por um preço acessível".
Depoimento de Tadeu Chiarelli.

. "Esse tipo de ambigüidade que encontramos na exposição "Do Figurativismo ao Abstrato" nos dá linhas de duas matrizes fundamentais dentro da história do desenvolvimento do pensamento plástico desse século no Brasil."
Depoimento de Agnaldo Farias.

. "Fundei o Museu de Arte Moderna porque senti que precisava fazer alguma coisa. E a única coisa era fundar um Museu de Arte Moderna".
Ciccillo Matarazzo Sobrinho.


São Paulo se industrializava e sonhava ser cosmopolita. Ciccillo e Yolanda Penteado decidiram tirar a arte da reclusão dos salões burgueses. Deram a ela o museu e patrocinaram exposições internacionais a cada dois anos. Promoveram a democratização da arte, cuja última etapa seria a doação do acervo à Universidade de São Paulo.

Depoimento de Augusto de Campos, poeta e ensaista . "Certamente o Museu de Arte Moderna àquela altura teve uma importância fundamental, pela soma de informações que trouxe em termos de exposições e eventos artísticos. Destes, o mais importante foi, sem dúvida alguma, a Bienal".

. "O museu permite para um jovem artista, não só ao público leigo, aprender com as obras que lá estão. Como a discussão de gestos, por exemplo, que é tratada em quadros de Appel e de Iberê Camargo. Ou como as questões de espaço, fundo e figura são tratadas na tela de um Morandi... Não existe um meio artístico consistente sem um museu. Lá você tem, de uma forma muito bem definida, bem acabada, o raciocínio de artistas que são verdadeiros pensadores visuais do nosso século. O MAC é um museu fundamental. Ele tem, possivelmente, o melhor acervo de arte moderna de toda a América Latina."
Depoimento de Agnaldo Farias.

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TARSILA DO AMARAL

"A Negra" - 1923
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A coleção brasileira de arte moderna do museu traduz várias estéticas e fases. Pinta negros para não ser européia, ariana; inspira-se em temas sociais para se destacar do academicismo alienado. Engaja-se. Busca a figura para depois optar pela abstração. É ora cubista, ora expressionista. Distorce e volta à ordem.

. "Por mais que pareça estabilizado aquilo que foi moderno e aquilo que não foi moderno no Brasil, eu acho que é ainda uma questão para ser discutida. Eu acho que um dos modernistas mais radicais no acervo é, sem dúvida alguma, a Anita Malfatti em sua fase expressionista. Eu acho que 'A Boba' e os desenhos são fases significativas. E o Flávio de Carvalho é um grande modernista".
Depoimento de Tadeu Chiarelli.

Depoimento de Renina Katz, artista plástica . "Tem o Goeldi, que é uma maravilha também. Uma gravura densa, silenciosa, do jeito que ele era... Uma figura densa, soturna e silenciosa, fazendo gravuras de grande impacto. Tem o Livio Abramo, que é o contrário, quer dizer, é o homem da luz. Ele trabalhava a madeira extraindo da gama do preto ou branco luminosidades incríveis. Tem uma série sobre o Rio de Janeiro que é uma festa luminosa, de uma qualidade técnica irrepreensível."


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OSWALDO GOELDI

"Garças", c. 1939 (Detalhe)
Xilografia em cores s/ papel

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LIVIO ABRAMO

"Rio" - 1953 (Detalhe)
Xilografia s/ papel

. "Mas eu tendo sempre a perceber esses desenhos do Flávio de Carvalho como registros de performances. Parece-me que a grandiosidade está nessa ritualização do cotidiano dele".
Depoimento de Tadeu Chiarelli.

. "... Aquela série da mãe morrendo... é tão impressionante essa série, não só pelo que tem de dramático. Ele consegue dar à própria linha e ao tratamento do desenho um efeito dramático".
Depoimento de Renina Katz.

Depoimento de Wesley Duke Lee, artista plástico . "Sobre o que a crítica e a sociedade classificam de escandalosos, eu acho que são três os que causaram realmente rebuliço do sistema: a Anita Malfatti, o Flávio de Carvalho e eu. O Flávio era um revolucionário. Ele ficou famoso por essa coisa que mais tarde se chamou ‘happening’. Eles eram verdadeiramente inovadores, sendo brasileiros. Provocaram choques na sociedade.