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Cartola - O Trovador do Samba
   

Os mais antigos textos da literatura portuguesa datam do século XII, época em que algumas pessoas costumavam escrever poesias conjugadas com a música. Surgiram então as cantigas, um tipo de produção literária que basicamente enaltecia o amor ou criticava comportamentos da sociedade daquela época. Eram as cantigas de amor, amizade, escárnio e maldizer. Todas escritas pelos chamados trovadores. Mas por que estamos dizendo tudo isso? Porque oito séculos depois do Trovadorismo, nascia no Rio de Janeiro um dos maiores compositores da música brasileira de todos os tempos. Cartola, como ficaria conhecido, era um homem simples que ao longo de mais de cinco décadas construiu um dos legados musicais mais importantes do cancioneiro nacional. Ele compôs e cantou o amor como ninguém. Seu ritmo era o samba... Cartola pode ser considerado o nosso trovador do século XX, por ter composto as mais lindas cantigas de amor. Angenor de Oliveira, vulgo Cartola, é o trovador do samba.

Cartola, O Trovador do Samba
Cartola, "trovador do samba"

As composições do mestre Cartola

Cartola e Paulinho da Viola
Paulinho da Viola e Cartola
"Quem gosta de homenagem póstuma é estátua. Eu quero continuar vivo e brigando pela nossa música. Sinceramente, eu não acreditava que ainda viveria esse tempo de grande justiça que o povo brasileiro – apesar dos pesares - faz à música brasileira" (Cartola, Revista Manchete, 03.12.1977).
Ao longo de seus 72 anos de vida, Cartola compôs, sozinho ou em parcerias, cerca de quinhentas canções. Seus principais parceiros: Elton Medeiros, Carlos Cachaça, Noel Rosa e Dalmo Castello. Até hoje essas músicas são regravadas por vários intérpretes, tamanha é a grandeza de seus versos e melodias. "O Sol Nascerá" (uma composição do início dos anos 60), por exemplo, já teve mais de seiscentas regravações até o momento.

Entre algumas antológicas gravações das músicas de Cartola estão "Alvorada no Morro" (de Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho) na voz de Carlos Cachaça; "Garças Pardas" (parceria dos anos trinta de Cartola e Zé da Zilda), na voz de Clementina de Jesus; "Soldado do Amor" (de Cartola e Nuno Veloso) com Maria Creuza, e "Não Posso Viver Sem Ela" (de Cartola e Bide), com Paulinho da Viola.

A vida de Cartola
(da infância até o reencontro com Dona Zica)
Angenor de Oliveira, o Cartola, nasceu no dia 11 de outubro de 1908, no Rio de Janeiro - mais precisamente no bairro do Catete. Por erro de um escrivão, seu prenome foi grafado Angenor. Era o quarto filho - de um total de sete - do casal Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira. Aos 8 anos de idade, já desfilava em blocos carnavalescos de rua. Aos 11, por problemas financeiros, foi morar com a família no morro de Mangueira. Começou a trabalhar muito cedo. Foi tipógrafo e pedreiro. Aliás, foi na época em que trabalhava em obras que surgiu seu apelido – por causa do chapeu coco que usava durante o serviço para evitar que seu cabelo ficasse sujo de cimento.
Cartola aos 11 anos
Cartola aos 11 anos

Dona Aída morreu prematuramente. Seu Sebastião era muito severo e chegou a expulsar Cartola de casa aos 17 anos de idade. Sozinho, o jovem Angenor envolveu-se com várias mulheres, adoeceu e deixou de trabalhar. Recuperado, juntou-se a mais seis amigos para criar a primeira escola de samba do subúrbio carioca – a Estação Primeira de Mangueira. Em 28 de abril de 1928, reunidos na casa do Euclides da Joana Velha, na favela da Mangueira, sete homens fundaram a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira: seu Euclides, Saturnino Gonçalves (o Satur), Marcelino José Claudino (o Massu), Pedro Caim (o Pedro Paquetá), Abelardo da Bolinha, Cartola e Zé Espinguela. Cartola tornou-se diretor de harmonia da Escola. Passou a se dedicar à composição e aos poucos foi construindo um enorme repertório.

"Um dia apareceu lá no morro o Mário Reis, querendo comprar uma música. Estava com outro rapaz, que veio falar comigo. 'O Mário Reis está aí e quer comprar um samba teu'. Fiquei surpreso: 'O quê? Querendo comprar samba, você está maluco? Não vendo coisa nenhuma'. No dia seguinte ele voltou e me levou até o Mário Reis. Ele confirmou. 'É, Cartola, quero gravar um samba seu. Fique tranqüilo, seu nome vai aparecer direitinho. Quanto você quer por ele?' Pensei em pedir uns 50 mil réis. O outro rapaz falou baixinho: 'Pede uns 500 mil'. Eu disse: 'Você está louco, o homem não vai dar tudo isso'. Com muito medo, pedi os 500 mil. Em 1932, era muito dinheiro. O Mário Reis respondeu: 'Então eu dou 300 mil réis, está bom para você?'. Bom, ele comprou o samba mas não gravou. Quem acabou gravando foi o Chico Alves."
Depoimento de Cartola sobre o samba "Que infeliz sorte", ao programa MPB Especial (direção de Fernando Faro) - TV Cultura, 1973

Nos anos 40, sua vida entraria numa fase negativa. Ficou viúvo, contraiu meningite e trocou o morro da Mangueira pela Baixada Fluminense. Curado, voltou a viver no morro e começou a namorar dona Euzébia Silva do Nascimento, a famosa dona Zica - irmã da mulher do compadre Carlos Cachaça.

Dona Zica e Mangueira: duas paixões
Restaurante Zicartola

Dona Zica nasceu em 1913. Conheceu Cartola ainda na infância, nos desfiles dos blocos carnavalescos de rua. Cartola pertencia aos Arrepiados, enquanto dona Zica era do Bloco do Seu Júlio. Foram se reencontrar depois de muitos anos, em 1952. Casaram-se depois de 12 anos juntos, em 1964. Passaram por dificuldades financeiras, abriram com mais dois sócios um restaurante chamado Zicartola (cartaz promocional no destaque) e desfrutaram juntos momentos inesquecíveis. Dona Zica foi fundamental na vida e na carreira de Cartola. Na época em que moravam juntos, Cartola compôs "As Rosas Não Falam", "Nós Dois" (feita dias antes do casamento de Cartola e Dona Zica) e "O sol Nascerá" (parceria com Elton Medeiros que se tornou um grande sucesso na voz de Nara Leão).

"Cartola e eu nos conhecíamos desde crianças, vivíamos ali no morro. Ele saía num bloco e eu em outro. Depois ele fundou a Mangueira e eu comecei a sair nela. Cartola casou-se com uma moça e eu também casei com outro rapaz. Saí do morro e ficamos muito tempo longe um do outro. Mais tarde eu fiquei viúva, ele também. Um dia nos reencontramos na casa da minha irmã. Ele jogou aquele papinho dele, eu também estava à toa, e daí estamos juntos até hoje".
Depoimento de dona Zica ao programa MBP Especial (direção de Fernando Faro) - TV Cultura, 1973

A outra paixão: o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. O mestre de Mangueira, durante os dez primeiros anos, foi o compositor oficial dos sambas enredo da escola. É de sua autoria o primeiro samba escolhido para a escola desfilar, "Chega de Demanda". Alguns deles tornaram-se imortais, como "Vale do São Francisco" e "Tempos Idos". Cartola, no entanto, nem sempre se relacionou bem com a Mangueira. Durante os anos de 1949 e 1977, ele sequer desfilou. Os motivos eram sempre os mesmos: divergências com os diretores da Escola, que em várias ocasiões teriam transformado a escola num reduto eleitoreiro.

Mestre Cartola: seus discos, os últimos dias de vida e as homenagens póstumas

Cartola e Radamés GnattaliCartola morreu de câncer em 30 de novembro de 1980, deixando vários orfãos na música. Seus parceiros, amigos e todos aqueles que desfrutaram de sua convivência até hoje sentem enorme saudade do grande e "divino" mestre de Mangueira.

Cartola só conseguiu realizar seu sonho de gravar um disco em 1974, aos 65 anos de idade. Sua vida conturbada e a falta de oportunidades fizeram com que sua obra só fosse conhecida oficialmente num disco lançado pelo produtor Marcus Pereira. Apesar de ter sido famoso nos anos trinta, reconhecido nos anos setenta e muito querido por todos (em destaque com o maestro Radamés Gnattali), Cartola nunca recebeu consideração à altura de sua obra. Nas duas últimas décadas, muitas foram as homenagens póstumas prestadas a ele por artistas como Beth Carvalho, Alcione, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Leny Andrade, Cazuza e Marisa Monte. Exemplos disso são o LP "Bate Outra Vez" de 1988, o CD de Leny Andrade, lançado em 1994, e a homenagem prestada por Chico Buarque num CD gravado em 1997 (Chico Buarque de Mangueira) feito em companhia dos integrantes da Estação Primeira de Mangueira.

   

FICHA TÉCNICA
Material preparado a partir do especial "Cartola - O Trovador do Samba"
Rádio Cultura AM - 1998
Apresentação: Gilberto Rocha
Locução: Alfredo Alves
Montagem: Marcelo Aguiar, Alcides Antonucci
Roteiro, produção e texto original para a Internet: Alexandre Tondella
Coordenação: Valvênio Martins
Gerência: João Batista Torres

Texto final para a Internet: Zeca Castellar
Pesquisa de referências sobre Cartola: Marta Angare Borlenghi, Patrícia Sacomano
Coordenação pedagógica: Pedro Paulo Demartini
Supervisão: Nadia Hatori

Informações complementares

Veja mais na Internet:

A vida é um moinho
Angenor de Oliveira - "Cartola"
Cartola
Estação Primeira de Mangueira

 

Bibliografia:

SILVA, Marília T. Barboza e OLIVEIRA FILHO, Arthur. Cartola, os Tempos Idos. Rio de Janeiro: Funarte, 1983.

Enciclopédia da Música Brasileira - Popular, Erudita e Folclórica. São Paulo: Art Editora, 1998.

Cartola. História da Música Popular Brasileira, volume 17, São Paulo, Abril Cultural,1971.

Cartola. Nova História da Música Popular Brasileira, volume 15, São Paulo, Abril Cultural, 1977.

DIAS, Rosa Maria. Filosofia na Verde-Rosa. Rumos - os caminhos do Brasil em debate, ano I, nº 1, dezembro 1998/ janeiro 1999: p. 90 - 94.

BÔSCOLI, Ronaldo. Cartola, uma Vida a Passo e Compasso. Manchete, nº 1337, Rio de Janeiro, Bloch, dezembro 1977, p. 62 - 65.

FERNANDES, Dirley. A Festa do Divino. Manchete, nº 2394, Rio de Janeiro, Bloch, fevereiro 1998, p. 86 - 91.

 

Filmografia:

Ganga Zumba (Brasil, 1964) Direção: Cacá Diegues Elenco: Antonio Pitanga, Luiza Maranhão, Jorge Coutinho, Cartola

Discografia:

  • FALA MANGUEIRA
    Gravadora Odeon, 1968

    Lá em Mangueira (Heitor dos Prazeres/Herivelto Martins)
    Alegria (Cartola)
    Saudosa Mangueira (Herivelto Martins)
    Sabiá de Mangueira (Frazão/B. Lacerda)
    Despedida da Mangueira (B. Lacerda/Aldo Cabral)

  • CARTOLA
    Coleção "Música Popular Brasileira" - Abril Cultural
    Gravadora RCA, 1970

    O sol nascerá (Cartola/Elton Medeiros)
    Divina Dama (Cartola/interpretação de Francisco Alves)
    Tive sim (Cartola/interpretação de Ciro Monteiro)
    Preconceito (Cartola)
    Luz negra (Cartola/A. Cardoso)
    Rugas (Cartola/A. Garcez/A. Monteiro)
    A flor e o espinho (Cartola/A. Caminha/G. de Brito)
    Degraus da vida (Cartola/C. Brasil/A. Braga)

  • RAÍZES DA MANGUEIRA
    Gravadora Copacabana, 1973
    Disco com vários compositores da Mangueira

    Exaltaçao a Villa-Lobos (Jurandir da Mangueira/Cláudio)
    Mangueira é muito grande (Ataliba)
    Mangueira (Jurandir da Mangueira)
    Tenha pena de mim (Cyro de Souza/Babaú)
    Estou vivendo na floresta (Babaú/Chiquinho)

  • CARTOLA
    Discos Marcus Pereira, 1974

    Disfarça e chora (Cartola/Dalmo Casteli)
    Sim (Cartola/Oswaldo Martins)
    Corra e olhe o céu (Cartola/Dalmo Casteli)
    Acontece (Cartola)
    Tive sim (Cartola)
    O sol nascerá (Cartola/Elton Medeiros)
    Alvorada (Cartola/Carlos Cachaça/Hermínio Bello de Carvalho)
    Festa da vinda (Cartola/Nuno Veloso)
    Quem me vê sorrindo (Cartola/Carlos Cachaça)
    Amor proibido (Cartola)
    Ordenes e farei (Cartola/Aluizio Dias)
    Alegria (Cartola)

  • CARTOLA
    Discos Marcus Pereira, 1976

    O mundo é um moinho (Cartola)
    Minha (Cartola)
    Sala de recepção (Cartola)
    Não posso viver sem ela (Cartola/Alcebíades Barcelos)
    Preciso me encontrar (Candeia)
    Peito vazio (Cartola/Elton Medeiros)
    Aconteceu (Cartola)
    As rosas não falam (Cartola)
    Sei chorar (Cartola)
    Ensaboar (Cartola)
    Senhora tentação (Silas De Oliveira)
    Cordas de aço (Cartola)

  • VERDE QUE TE QUERO ROSA
    Gravadora RCA, 1977

    Verde que te quero rosa (Cartola/Dalmo Casteli)
    A canção que chegou (Cartola/Nuno Veloso)
    Autonomia (Cartola)
    Desfigurado (Cartola)
    Escurinha (Geraldo Pereira/Arnaldo Passos)
    Tempos idos (Cartola/Carlos Cachaça)
    Pranto de poeta (Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito)
    Grande deus (Cartola)
    Fita meus olhos (Cartola /Olvaldo Vasques)
    Que é feito de você (Cartola)
    Desta vez eu vou (Cartola)
    Nós dois (Cartola)

  • CARTOLA 70
    Gravadora Odeon, 1978
    Cartola e seus companheiros Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Clementina de Jesus e Odete Amaral.
    Participação especial de Zezinho

    Enquanto houver Mangueira (Roberto Roberti/A. Marques Jr.)
    Lá em Mangueira (Heitor dos Prazeres/Herivelto Martins)
    Mundo de zinco (Antônio Nássara/Wilson Batista)
    Tempos idos (Cartola/Carlos Cachaça)
    Ao amanhecer (Cartola)
    Alvorada no morro (Cartola/Carlos Cachaça)
    Quem me vê sorrindo (Cartola/Carlos Cachaça)
    Alegria (Cartola)
    Lacrimário (Carlos Cachaça)
    Saudosa Mangueira (Herivelto Martins)
    Sei lá, Mangueira (Paulinho da Viola / Hermínio Bello de Carvalho)
    Rei vagabundo (Cartola)
    A Mangueira me chama (Cartola)
    Sempre Mangueira (Cartola)
    Folhas caídas (Cartola)
    Eu e as flores (Cartola)
    Sabiá de Mangueira (Frazão / B. Lacerda)
    Exaltação à Mangueira (E. B. da Silva / A. Augusto da Costa)
    Despedida de Mangueira (B. Lacerda/Aldo Cabral)
  • CARTOLA 70 ANOS
    Gravadora RCA, 1979

    O inverno do meu tempo (Cartola/Roberto Nascimento)
    A cor da esperança (Cartola/Roberto Nascimento)
    Feriado na roça (Cartola)
    Ciência e arte (Cartola/Carlos Cachaça)
    Senões (Cartola/Nuno Veloso)
    Mesma estória (Cartola/Elton Medeiros)
    Fim de estrada (Cartola)
    Enquanto Deus consentir (Cartola)
    Dê-me graças, senhora (Cartola/Cláudio Jorge)
    Evite meu amor (Cartola)
    Silêncio de um cipreste (Cartola/Carlos Cachaça)
    Bem feito (Cartola)

  • DOCUMENTO INÉDITO
    Gravadora Eldorado, 1982

    Gravação de um show em homenagem a Cartola, realizado no final de 1981
    Que sejam bem vindos (Cartola)
    Autonomia (Cartola)
    Acontece (Cartola)
    Senões (Cartola/Nuno Veloso)
    O inverno do meu tempo (Cartola/Roberto Nascimento)
    Que sejas bem feliz (Cartola)
    Dê-me graças, senhora (Cartola/Cláudio Jorge)
    Quem me vê sorrindo (Cartola/Carlos Cachaça)

  • CARTOLA ENTRE AMIGOS
    Gravadora Funarte

    Brasil, terra adorada / Não
    O samba do operário
    Rolam nos meus olhos
    Se outyro amor tantasse
    Partiu
    Festa da Penha
    Deus te ouça
    Interroguei uma rosa
    Tu vais ao samba
    Juca Malvado
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